Pesquisa do Palavrório

29.12.05

Balango

Putz, acabou o ano mais rápido de minha vida!! Ele mal começou e já está aí, nos seus estertores, declarando findos os seus trabalhos. Hora de fazer um balango do que passou e projetar algo para o ano que vem.

O que passou? Mudei de profissão, casei, mudei de casa e ganhei dois filhos. Só não viajei para o exterior, mas finalmente conheci a Ilha do Mel, o único lugar onde o Paraná tem praias, e não litoral, que fica ridiculamente perto de onde moro, e para onde nunca tinha ido. O resumo é esse, tem bastante recheio, mas ele importa só para mim, para quem lê ele pareceria sem graça.

O que acontecerá ano que vem? Sei lá, não tô nem um pouco preocupado com isso. Esse ano começou sem expectativas e terminou como terminou. Então, para o ano que vem, o único projeto é dar duro para ser feliz. E o que vier é lucro.

FELIZ ANO NOVO!!!

9.12.05

Novos bárbaros

O termo bárbaro vem dos romanos e significa aqueles que moravam além dos confins do Império, um estrangeiro. Como eles tinham costumes diferentes dos romanos e os romanos se consideravam a única civilização que vale a pena, os bárbaros eram incivilizados. Ou seja, representavam tudo o que os romanos desprezavam.

Hoje em dia costumamos chamar de bárbaros todos aqueles que não têm comportamentos civilizados. Normalmente se associa a palavra barbárie a segmentos bem específicos da população: pobres, membros de gangues, de torcidas organizadas, moradores de favelas, enfim, os que a esquerda chama de excluídos.

Mas a barbárie está presente em todos os segmentos da sociedade. Vá a uma festa chique, pode ser no melhor local da cidade. Se a bebida acabar e depois voltar, você verá as pessoas se comportando como se aquela bebida fosse salvar as suas vidas. Veja um evento em que a comida é gratuita. Nobres senhores de terno e gravata disputando palmo a palmo o terreno em frente ao buffet com senhoras de permanente para pegar uma fatia de rosbife mal feita. Nos semáforos, carros chiques furam o sinal, viram à esquerda quando não podem, estacionam onde querem e ficam ofendidos se são repreendidos. Todos esquecem que há outras pessoas ao redor, e se comportam como se nada mais importasse.

E ficamos sinceramente chocados quando vemos jovens entrando no ônibus sem pagar, quando vemos brigas de torcidas, eventualmente com mortes, quando vemos lutas de bandos armados do tráfico carioca (que, para não perder o costume de apontar culpados em todos os segmentos da sociedade, existe pois há uma grande faixa de consumidores que paga o preço e outra de gente que realmente ganha grana com o tráfico, instalada em prédios luxuosíssimos) pelo controle de território, enfim, ficamos sinceramente chocados quando a barbárie é mais facilmente reconhecível.

Esquecemos apenas que também somos bárbaros, de uma certa maneira. E que se a humanidade evoluiu muito ainda, falta muito mais para caminhar.

29.11.05

A última minoria

Todas as minorias já representadas que me perdoem, mas há uma última minoria que ainda não tem defensor algum, e que merece uma atenção especial, principalmente por representar uma minoria em extinção.

Aos números. 49,8% da população do mundo é feminina. Sobram 50,2% de homens.

29% é de crianças, e 7% são de idosos, ou seja, aqueles não sabe o que é sexo e esses ou não se lembram ou não conseguem mais. Sobraram nos homens 32% da população.

Na média, 10% da população é gay. Sobrou 28%, arrendondando bem pouco para baixo.

Vamos retirar agora as outras minorias: religiões que não fazem parte das três principais (cristã, judaica ou muçulmana), deficientes físicos e/ou mentais, desempregados, trabalhadores rurais e pessoas que não têm caráter, pessoas que vivem de subsídios estatais ou de roubo, e deve sobrar uns 4% (sendo otimista).

Ou seja, do total de 6,4 bilhões de pessoas no mundo, 4% somos homens, caucasianos, heterossexuais, sem problemas físicos ou mentais, honestos, trabalhadores e pagadores de impostos e muito provavelmente éticos e fiéis às suas companheiras (quando as tiverem).

Quando é que levantaremos a bandeira da última minoria?

10.11.05

Ainda sobre a guerra civil

O mais engraçado, se é que esse lance da França pode ter algo engraçado, é a reação das pessoas que achavam a França um país de primeiro mundo, invejado, um lugar bom para se morar. Essas pessoas achavam que o que acontece lá é um absurdo, inimaginável, e têm medo que isso se espalhe para outros países.

A guerra civil acontece em todo o mundo. Na Suíça, ela não usa armas, mas seringas, uma juventude que briga com seus antecedentes se drogando. No Japão e na Suécia, os jovens não brigam, jogam-se na frente de trens, de pontes. Nos Estados Unidos, rouba-se as armas do pai para atirar em Columbine. E por aí vamos.

A guerra já se alastrou. Ela é global. Mas era mais fácil achar que a grama de lá era mais verde...

7.11.05

Visões da Guerra Civil

Esse é o livro do Hans Magnus Enzensberger. Já tem uns 11 anos de idade, pelo menos. No entanto, continua cada vez mais atual. Lá ele já dizia que as brigas de torcida, que os confrontos entre polícia e minorias nos Estados Unidos e que a guerra na Bósnia eram reflexos de uma mesma situação: a guerra civil. E que as causas eram basicamente as mesmas: a falta de perspectiva de uma grande parcela da população, em especial dos jovens.

E de repente, o caldeirão entornou na França, onde há dez dias os jovens de lá quebram o pau com a polícia, aparentemente sem motivo. No entanto, a morte de dois filhos e netos de imigrantes em circunstâncias misteriosas, com uma não confirmada participação da polícia, bastaram para deflagrar o conflito, que não dá mostras de arrefecer.

No Brasil, qualquer encontro de torcidas provoca feridos, quando não um e outro morto. Sem contar com um referendo sobre a venda ou não de armas, motivado pelo excesso de armas em circulação (sem entrar no mérito do referendo ou de seus resultados).

O caldeirão ferve. O modelo de vida atual já se provou um beco sem saída, difícil de sustentar mas infelizmente difícil de contrapor. Será necessário, porém, ou o mundo acaba antes da gente. E acredito que ninguém quer testemunhar o fim de tudo...

1.11.05

Opinião controversa

Diz-se que quem vive de comunicação - publicitários, jornalistas, relações públicas e homens/mulheres de rádio e TV - devem necessariamente ser antenados. E por antenados entenda-se: ver tudo o que se passa na TV, escutar rádio para cacete, navegar na Internet 24 h por dia em busca do site mais bacana, ler o maior número de jornais possível, ir ao cinema etc etc etc.

Putz, discordo veementemente. Eu tenho uma opinião, radical até um certo ponto. Não, repito, não é necessário ler nenhum jornal nem escutar rádio nem ver TV para estar antenado (confesso que a Internet não dá para dispensar). Até mesmo a Internet deve ser usada com moderação. Na prática, para manter-se antenado e atualizado, é necessário apenas ler os grandes clássicos da literatura. E digo de novo, literatura, não livros técnicos.

Os grandes clássicos trazem mais informações para o entendimento da nossa realidade que a imprensa diária. Para entender a Rússia de hoje, basta ler Guerra e Paz, Dostoiévski, Tólstoi e os grandes, quase todos de antes dos comunistas. Para entender os Bálcãs, leia os livros dos autores de lá. Conheço poucos, mas O Dicionário Kasar, de Milorad Pávitch (iugoslavo, pois ele é de antes da divisão), traz histórias deliciosas da encruzilhada que é aquele pedaço do país. Conflito árabe-israelense? Amos Óz. E por aí vamos.

A história é, até um certo ponto, a eterna repetição de um enredo com personagens e tecnologias diferentes. Ou você acha que não se luta por petróleo no Oriente Médio desde 1914? E por água na região de Israel desde antes de Cristo? Ou que a América Latina vive desde o momento em que o primeiro europeu colocou os pés aqui o eterno lamento de ser o continente do futuro que ainda não deu certo? E tenha certeza, todas essas histórias estão contadas pelos grandes (e também pelos pequenos, ainda que sem tanta qualidade) escritores.

Desplugue-se de vez em quando, e leia um livro. Você só tem a ganhar.

31.10.05

Diferenças cruciais

Hoje há um "grande" escândalo nos jornais ingleses. O ministro do Interior, Dave Blunket, foi acusado de ter ações em uma empresa que presta serviços ao governo (ainda que a um ministério léguas de distante do dele) e isso poderia gerar um conflito de interesses. O medo é que ele favorecesse a empresa, ou soubesse de informações privilegiadas, para ficar rico. E isso que ele tem um pacote de ações pequeno, nada grande.

Enquanto isso, aqui na Botocúndia, descobre-se que cerca de US$ 94 bilhões de dólares foram enviados ao exterior por meio das contas CC-5 do Banestado. No mundo inteiro não existe ladroagem maior que esta. Só para vocês terem uma idéia, a máfia russa mandou cerca de US$ 8 bilhões para fora da Rússia. Somos quase 12 vezes mais pilantras que os russos. E digo somos pois é a nossa grana, e é o nosso país.

Tento me lembrar sempre que o Brasil tem apenas 505 anos de civilização ocidental, e que tem menos de 20 anos de democracia constante. A primeira eleição depois da ditadura aconteceu em 1982, para governador e deputado e caterva. É pouco tempo para amadurecer conceitos como bem público (e que quer dizer de todos, e não de ninguém), responsabilidade fiscal, idoneidade, honestidade, lisura e outros que tais.

Me lembro sempre da Itália, que tem pouco mais de dois mil anos de civilização, e conseguiu eleger um Berlusconi, um Fini fascista e um Bossi maluco e ainda mais facista. E os Estados Unidos, ainda que frutos de uma colonização diferente, elegeram o Bush. Então, temos esperança.

Mas que é difícil acreditar às vezes, ah isso é...

25.10.05

Gostos diversos

Felizmente os homens têm gostos diversos (quando falo homens, entenda-se a humanidade como um todo, não os bípedes do sexo masculino). No entanto, quando se fala sobre os gostos, ainda somos da idade das cavernas, onde o consenso era resolvido no porrete e no tacape.

Pois a pior coisa que existe é você falar mal de uma banda ou músico para alguém que é fã dessa banda. De nada adiantam os critérios técnicos que justifiquem porque aquele músico ou banda é ruim, a pessoa gosta da banda, e se você falar mal dela, sai da frente que lá vem porrada.

Acontece mais ou menos a mesma coisa no futebol. Mesmo que o seu time esteja indo para a segunda divisão, só um torcedor meia boca admitirá que ele está jogando mal. Em todas as situações, todas, o time sempre é bom. E se alguém falar mal dele, pancada. Infelizmente, nesse caso podendo levar até à morte.

Comidas, filmes, livros, roupas, enfim, tudo o que mexe com o pessoal acaba sendo motivo para um desgaste. Tudo bem que as vezes você achincalha (Pearl Jam?? Bleargh...), mas será que o outro lado não percebe que é apenas uma manifestação de gosto, e que os valores fundamentais permanecem sendo positivos? Enfim, não há consenso e na maior parte das vezes dá briga. Melhor não discutir e assumir de vez que Pearl Jam é uma droga, e ponto final.

24.10.05

Perguntas erradas

O referendo sobre a proibição à venda de armas já passou, o não ganhou, e noves fora qualquer opinião que você tenha sobre o tema, a pergunta estava errada desde a sua formulação. E o governo atual, que realmente não sabe lidar com as palavras, não conseguiu fazer com que a sua vontade - a proibição - ganhasse.

A pergunta que deveria ter sido feita, e que não envolve a venda ou não de armas, é se a pessoa é a favor da vida. Se sim, e acredito que a maior parte das pessoas seja a favor, se começa a verdadeira discussão, que é sobre segurança pública, educação pública, saúde pública e políticas públicas de inclusão social.

O problema é que aqui na Botocúndia o que invertemos o conceito de público. A res publica, a coisa pública, é, ou deveria ser, de todos. No entanto, a pessoa aqui lê público e pensa que não é de ninguém. E dá-lhe pichação, roubo de fios de telefone e luz, depedração de pontos de ônibus etc. E como não é de ninguém, ninguém cuida. Por isso a escola pública é ruim, o hospital público é ruim etc.

A pergunta esteve errada desde o começo. E enquanto não quisermos agir para que a resposta certa - sim, sou a favor da vida - se torne realidade, pode fazer referendo até sobre a venda de espingarda de chumbo, que nada mudará.

P.S.: Pessoalmente, eu sou contra a venda de qualquer artefato feito única e exclusivamente para matar. Aí me dirão que uma faca ou um martelo também matam. Concordo, mas quero ver você cortar um bife ou pregar um quadro na parede com um 38...

17.10.05

Esperança para a humanidade

Uma vez o Luis Fernando Veríssimo escreveu que ainda havia esperança para o futuro da humanidade. Ele estava em casa de amigos, e era o aniversário do menor de todos, um criança entre três e seis anos, não me lembro ao certo. Um dos presentes da criança era um brinquedo eletrônico, super-sofisticado, desses que você aperta um botão e ele faz tudo sozinho, alijando completamente a criança do processo do brincar, mas que infelizmente fazem tanto sucesso por aí.

Pois bem, o piá ganhou o brinquedo, viu qual era, e saiu brincando pela sala. Com a caixa de papelão do brinquedo. O menino solenemente ignorou a tecnologia - talvez não tenha sido tão solene, pode até ser que tenha sido insolente, mas pelo menos teve personalidade - e foi brincar com a própria imaginação.

Todo esse palavrório para chegar ao que importa. No sábado, fui jantar com minha namoramada após o cinema. Fomos a um restaurante legal, e à mesa ao lado estava sentada uma família: pai, mãe, irmã mais velha com o namorado maior de idade (pois ele dirigia e eles foram embora antes de todos) e irmã mais nova, um pré-adolescente ou já adolescente entre 12 e 14 anos. Tudo tranquilo, o casal foi embora, e ficaram os pais e a irmã mais nova. Até que eles também resolveram ir embora.

Detalhe que traz esperança ao mundo: A MENINA ESQUECEU O CELULAR NA MESA!!! Em uma época em que o celular é praticamente uma extensão dos dedos, e em especial dessa molecada que não desgruda de qualquer coisa eletrônica, quem dirá o celular, que custa menos de R$ 100, uma garota esquecer o celular na mesa é sinal de que nem todos estão viciados nessa traquitana. E olha que era um celular bacana.

Espero que mais gente esqueça o celular. Aí quem sabe voltaremos a conversar.

14.10.05

Os homens de hoje

Caro Aleksey, caro Marcos Amend, desculpem se roubo a idéia de vocês, mas não posso deixar de falar das novas categorias em que vocês classificaram os homens.

A primeira delas, talvez a menos engraçada, é o pseudo-maduro. E não há como negar. Nós, homens, somos em grande maioria uns piás crescidos que não gostaram de ter crescido. Pode perceber que, quando se coloca uma bola no meio de um grupo de homens, viram todos piás. E a competição para ver quem joga melhor, para ver quem marca mais gols, logo começa. Homem é um piá com mais responsabilidades e uma certa dificuldade em reconhecê-las e aceitá-las.

Mas a segunda é a mais fantástica. Somos todos pedreiros do amor. Na prática, o que é isso? É que todo homem, na frente de uma mulher gostosa, se comporta como uma gostosa. E o que nos impede de dizer, com todas as letras, "Ô sua gostosa!!!", meio que salivando quando falamos isso, é a educação. Daí que dizemos palavras mais sutis como "como você está elegante hoje!" ou "como você está bonita!", quando no fundo estamos querendo dizer "ô sua gostosa!". E, claro, tudo com o nobre intuito de arrastá-las para algum lugar onde se possa transar.

E claro que os pedreiros do amor se distribuem em todas as classes sociais. Variam as falas, ou como dizem os verdadeiros pedreiros, "vareiam" as falas. Mas no fundo os homens somos todos iguais. Ô raça!!!

13.10.05

Tempo, tempo, tempo

O que pode acontecer em um mês?

No mundo, dá para testemunhar um ou mais furacões nos Estados Unidos e no Caribe, um terremoto no Paquistão, a eleição da primeira mulher como chanceler na Alemanha, o líder do Partido Republicano do Bush pedir renúncia por corrupção e malversação dos gastos, outras tantas descobertas da gripe do frango, da Ásia chegando à Europa, e mais algumas coisas de que não me lembro.

Em Brasília, dá para acontecer de tudo. Dá pra caçar um deputado, fazer outros três renunciarem ao cargo para não serem cassados, levar mais 13 a enfrentar um processo de cassação e não votar nenhuma, mas absolutamente nenhuma lei que faça esse país melhor.

No Paraná, não aconteceu nada, pois o governador não faz nada. Talvez seja até bom.

Em Curitiba, não aconteceu nada também, pois o prefeito não faz nada. Mas os buracos nas ruas aumentaram sobremaneira, e as ruas estão ruins como há muito não se via.

No meu bairro, provavelmente algumas crianças nasceram, algumas pessoas morreram, comeu-se muito frango, nenhum restaurante abriu, nenhum fechou, enfim, a vida seguiu normal.

Mas lá em casa, mudou o endereço, mudou o estado civil, mudou o telefone, mudou o estado parental - de filho para pai em um segundo, mudou o armário, a linha de ônibus, o tempo para vir ao trabalho, para voltar a casa, mudou quase tudo.

E vou te dizer, como podem acontecer coisas em um mês!!!

Vamos ver se consigo contá-las agora com mais freqüência.

15.9.05

Não reeleja ninguém!!!

Hombres, mujeres, se vocês querem fazer algo realmente digno para esse país, e que não custe muito, nem de seu tempo nem de seu bolso, é o seguinte: não reeleja ninguém, nunca mais!!

O grande mérito do Roberto Jefferson é que ele expôs a sujeira daquela escumalha. E seguindo as palavras de meu quase cunhado, Rondônia mostrou ao Brasil que apenas 4% dos deputados de um parlamento são honestos. No caso do Congresso, onde há 513 parlamentares, dá 20 senhores ou senhoras que, em teoria, não pilham os cofres públicos.

Na dúvida de não conseguir distinguir nenhum desses 20, não reeleja ninguém!! Nunca mais!!! Assim esses não reeleitos finalmente terão que trabalhar. Talvez terão que administrar o que já roubaram, mas não roubarão mais.

E há duas situações para quem entra. Primeiro, por não conhecer os caminhos da gatunagem, não saberá roubar. E quando descobrir, já estará mais para o fim do mandato. Assim, roubará menos. E se ele roubar, as chances de que deixe pistas pela inexperiência são maiores, permitindo assim que seja flagrado mais facilmente. Ah, e um benefício indireto. Se ele ver que nenhum político foi reeleito por suspeita de roubo, e ele quiser manter a boquinha, não roubará para tentar parecer honesto. Pode até ser honesto, o que é ainda melhor.

Por isso, compadre, comadre, não reeleja ninguém!!! Não precisa ter lei para isso, basta você escolher pessoas que nunca foram políticos. Você vai ver a dinheirama que vai sobrar nesse país, e a cadeia que vai faltar para esses neófitos que tentarem se aproveitar da situação.

12.9.05

Contradição

Deve-se trabalhar para viver. Muitas vezes, vive-se para trabalhar. Mas acho que o corpo e a mente estão adaptados para o ócio, criativo ou não (mesmo não gostando do De Masi, ele tem uma certa razão). Basta ver como reagimos depois de um feriado de cinco dias.

A seqüência é mais ou menos a seguinte: uma semana cheia (cinco dias), um fim de semana normal (dois dias), uma semana curtíssima (dois dias), um feriadão (cinco dias) e agora uma semana cheia. Mesmo que o feriadão não tenha tido um dia de sol, foi ótimo. Sem hora para acordar, sem hora para dormir, podendo comer e beber à vontade, sem preocupação com a aparência, resultados, horários e outras diplomacias inerentes ao trabalho.

Mas há o problema que, para poder aproveitar o feriadão, é necessário ter dinheiro. E para se ter dinheiro, é preciso trabalhar (desconta-se aqui fontes ilícitas de rendimento). E não há estatísticas confiáveis a respeito do nível de satisfação das pessoas com o trabalho. Desconfio que a maior parte delas está insatisfeita com a ocupação que possuem. Assim, trabalha-se em algo de que não se gosta para, durante os dias de férias, fins de semana e feriados, ser quem se é e fazer algo de que se gosta.

Deve haver uma saída melhor, que traga mais satisfação. Enquanto isso, contentamo-nos em roubar uns minutos do trabalho para escrever croniquetas como essa.

1.9.05

Destruição total

As fotos são assustadoras. Nova Orleans praticamente desapareceu, debaixo d'água. Já era abaixo do nível do mar, o mar simplesmente reclamou o que lhe era mandado: obedecer a lei da gravidade.

As reações são assustadoras. O povo ensandecido pisoteia uns aos outros, os saques são generalizados - hoje correram pelo mundo fotos de uma van cheia de cerveja, provavelmente um item essencial para os bárbaros norte-americanos -, ninguém respeita ninguém, na hora do desastre o homem volta ao seu estado irracional.

As ações de reparo também são estranhas. O presidente manda tirar as forças de resgate de lá para preservar a sua segurança. Ou seja, condena quem está lá a se virar, mas manda que ninguém roube nada. A propriedade privada em primeiro lugar, se der para salvar algumas vidas depois, tudo bem.

E esse cretino ainda não quer ver que tudo é culpa da poluição. Tem mais gases no efeito estufa, a temperatura da terra é maior, derrete as geleiras mais rápido, mais água gelada encontra as águas quentes do Equador, e os furacões são mais devastadores. Idiotas!

Triste é saber que nós também estamos dando a nossa contribuição para acabar com o planeta...

23.8.05

A sensação do tempo

Na mesa ao lado, conversam sobre uma ação especial de marketing direto referente ao Ano Novo. E estamos em 23 de agosto. Putz, o Ano Novo parece longe, muito longe. Até um certo ponto, o sete de setembro está longe.

Certa feita li que a sensação do tempo que temos decorre diretamente do nosso conhecimento. Assim. Quando éramos crianças, quase tudo o que víamos fazia o tempo se alongar, pois era uma novidade. Aprender a andar de bicicleta tomava um grande tempo, físico e mental. Chutar a bola na direção certa, escrever, desenhar, enfim, tudo o que aprendemos tomou tempo nosso.

Depois, como essas coisas passaram a ser automáticas, a cabeça não se ocupa mais disso. Entramos no carro e saímos, sem pensar no que estamos fazendo. E daí a cabeça pensa em outras coisas, talvez fáceis, talvez difíceis, mas outras coisas. Assim, não temos a percepção mais clara de que estamos fazendo coisa, apesar de o dia continuar a ter 24h. E essa falta de percepção leva à impressão de que o dia é mais curto, de que o tempo passa mais rápido.

Independente do que for, a necessidade de estar sempre atualizado, os compromissos sociais cada vez em número maior, as obrigações familiares, o cuidado com a saúde e tantas outras obrigações acabam realmente matando o tempo do lazer, que talvez seja o último bastião onde podemos ser nós mesmos.

Não resta dúvida, é necessário parar os relógios. TODOS, AGORA!!!

22.8.05

Segundas

Segunda-feira, um pusta dia de sol, calorzinho, e nenhuma, mas nenhuma vontade de trabalhar. Nenhuma vontade de entrar no simulacro de vida oferecido pelas grandes corporações, pelo sistema que é mais que capitalista, onde não há ilusões de um mundo mais justo, mais humano.

Não à toa que a cada segunda há milhares, milhões de pessoas que reclamam de ter de voltar à rotina. Pois a rotina é massacrante. O trabalho invade todos os aspectos da vida, e acabamos vivendo para trabalhar, em vez de trabalhar para viver. O trabalho não é o veículo que nos proporciona uma vida melhor, mas sim “a vida”, a única opção de vida.

E quem não é workaholic, quem não sacrifica a vida pessoal pela da empresa, quem não “veste a camisa” em todos os momentos, é visto como um estranho, como não competente, como pouco profissional. E fazem com que a não dedicação ao trabalho seja vista como anormal, e quem não se dedica como um alienígena.

Mas que dá vontade de ir viver em outro planeta e tentar montar um outro sistema, ah isso dá!!

18.8.05

Admirável Mundo Novo

Bitcho, basta dar uma navegada pela internet para saber que entramos em mundos novos. O uso da internet democratizou de vez a informação no mundo (pelo menos para quem tem acesso à internet), a despeito da vontade das grandes corporações.

Assim, basta que alguém tenha comprado algum produto que não cumpriu o que a propaganda prometeu que na hora ele colocará a sua opinião no site, muito antes de reclamar com o fabricante. E, se o fabricante entrar em contato para propor algum acordo espúrio, tanto a pessoa não aceitará o acordo como o próprio acordo será ainda mais divulgado do que a simples falha no produto.

Um mundo até um certo ponto bacana. Felizmente, para quem receia que tudo fique massificado, essa possibilidade de publicar informações ajuda quem tem coisas bem pequenas e restritas a uma determinada geografia a serem consideradas bacanas, cool. Assim, mesmo que todos achem que Coldplay é o máximo, haverá diversos nichos que acham que os caras não tocam nada, e oferecerão outras coisas para nós ouvirmos.

E quando tudo estiver conectado, será tudo uma grande loucura.

Quem viver e sobreviver, verá.

16.8.05

Sombra de mariposa

No banheiro da empresa há a sombra de uma mariposa. De acordo com um colega, a mariposa ficou parada no mesmo lugar pelo menos um dia inteiro, mais de 24 horas. Ele achou que ela estava morta, e foi tocá-la. Ela saiu voando. Ficou o contorno das asas.

Uma vez li, em algum lugar, que as poucas paredes que sobraram da explosão da bombas atômicas traziam “impressas” sombras das pessoas que estavam ali entre a bomba e a parede. Um perfil macabro eternizado na parede que depois virou monumento, um instantâneo do maior momento de terror instantâneo que a humanidade já produziu. Houve outras matanças piores, mas nunca concentradas em um único segundo, minuto.

Em Pompéia, há inúmeros cadáveres carbonizados, pessoas que não tiveram tempo de reagir à explosão do Vesúvio. Na peça A Vida é Cheia de Som e Fúria, de Felipe Hirsch, ele brinca com uma hipótese. E se um pai de família, correto, carinhoso, que nunca bebeu nem jogou, resolve justamente no dia da erupção jogar dados, só para ver como é, e é eternizado naquela posição? Ficará para sempre conhecido como um jogador de dados, ou um viciado em jogo de Pompéia.

Marcas, marcas, todos os que aqui passam deixam marcas. Algumas mais fortes, outras menos. Algumas que deveriam ser esquecidas, outras que não deveriam. A da mariposa, segundo meu colega, precisa de uma boa esfregada com algum produto de limpeza para ser removida. Mas por enquanto ninguém pensou nisso.

15.8.05

Mundo corporativo

Vez ou outra eu comento sobre o mundo corporativo, sobre como a vida corporativa foi tomando conta de tudo, e que agora somos novos escravos, a corporação em primeiro lugar e, se der tempo, o resto.

Hoje é aniversário da minha enteada. A festa começa às 18h, para aproveitar que todas as crianças saem da escola e vão direto pra festa. E marcam uma reunião para as 18h30. E quando digo que não vou, me perguntam: “E o profissionalismo?”

Putz, que chato ter que dizer para as outras pessoas que a corporação não é o mais importante de tudo, que há coisas muito mais importantes, que a vida corporativa é falsa, é ilusão, pois somos todos peças descartabilíssimas nesse mundo corporativo, e que na hora que aparecer alguém fazendo o mesmo que a gente e recebendo menos, seremos trocados.

Na vida pessoal, pelo contrário, temos a chance de mostrar nossas habilidades únicas, nossas características pessoais, nossa vida real, enfim, aquilo que nos torna humanos de fato. Sentimentos, únicos e exclusivos, que você pode dividir com os outros sim, mas que não podem ser substituídos. Nem o amor, nem o ódio.

Claro que vou à festa. Claro que ficarei com a pulga atrás da orelha, afinal, preciso do dinheiro para pagar as contas do mês. Mas levarei o consolo abaixo:

"Neither a lofty degree of intelligence nor imagination nor both together go to the making of genius. Love, love, love, that is the soul of genius." (Wolfgang Amadeus Mozart)

Feliz aniversário, querida!!

12.8.05

O fim já chegou!

Da Inglaterra e da Holanda vem a última novidade em reality shows. Mulheres querem escolher o melhor fornecedor de esperma para os filhos que querem criar sozinhos, sem maior interferência masculina que a do espermatozóide. Nada de contato sexual pois isso pode dar romance, o lance é só meter um bando de homens em uma espécie de corrida de cavalos da evolução, para escolher o reprodutor mais apto. Tudo, claro, passado, repassado e reprisado na tevê, para gáudio dos telespectadores ávidos por ficar ainda mais vivendo a vida dos outros em vez de cuidar da própia.

Até um certo ponto, lembra o que a Xuxa fez com o Luciano Szafir, mas sem a mídia. Ela pelo menos ficou um pouco mais comedida, fez suas escolhas tão pessoalmente quanto uma personalidade pode, mas não colocou homens em corrida para o fato.

Putz, o que faltará colocar em realities show? Talvez a única idéia que seria realmente boa seria fazer as eleições com um reality show. Coloque-se todos os pretendentes ao cargo em uma casa, fecha-se as portas durante três meses, e submete-se-os a provas de conhecimentos gerais, gerenciamento financeiro, sensibilidade social e – sinal dos tempos – ética e honestidade. O público vai eliminando os mais incapazes, e sobrarão ou os mais capazes ou os menos incompetentes. Talvez assim melhoremos o caráter geral da nação.

Isso se houver um amanhã, e não formos rejeitados na próxima seleção do Big Brother.

8.8.05

Um dia nublado

O fim de semana inteiro fez sol. Um sol bonito, nem tão de verão que você não tem vontade de fazer nada, nem tão de inverno, em que você quer ficar dentro de casa com as cortinas abertas e debaixo do sol para se aquecer. Um sol bacana, com pouca brisa, para todos saírem de casa e passarem o dia fora.

A segunda já mudou tudo, e trouxe com ela, além do trabalho que muitas vezes parece insensato, um céu cinzento e o frio. Poucos foram os que saíram da cama contentes hoje de manhã, apenas os “madrugadores neuróticos anônimos”, aqueles que dizem que não conseguem ficar na cama além das seis e meia da manhã. Fora eles, todos relutaram em sair da cama.

E no trabalho, todos os comentários são iguais. “Putz, ainda tô dormindo.” “Meu, que luta sair da cama de manhã.” “Tava tão quentinho debaixo das cobertas”, e por aí vai. Ninguém contente de estar vivo, de encarar o dia nublado e eventualmente chuvoso como necessário. Apenas o rame-rame costumeiro, a ranhetice de sempre.

Enfim, esquecemos todos que além das nuvens o céu é sempre azul, e o sol continua a brilhar. Falta-nos um pouco mais de esperança em nós mesmos e na vida como um todo, para que um dia nublado não altere mais o humor.

4.8.05

Estranhos prazeres

Há cinco minutos, acabei de ler A Misteriosa Chama da Rainha Loana, o último romance do Umberto Eco. E o livro é muito bom, mas muito bom mesmo (para ler a resenha, espere até 15 de agosto e acesse o site do Rascunho, ela estará lá).

Daí que eu terminei de ler o livro no trabalho, e comentei com um colega que o livro é muito bom. E ele me disse que não gosta desse tipo de livro. Um outro já falou que só lê livros técnicos, um terceiro ainda que não lê em absoluto. Outro dia, em um shopping, testemunhei um fragmento de conversa entre duas garotas, uma dizendo que não gosta de ler mesmo, não é porque não tem tempo. Ela prefere fazer outras coisas.

Daí que me pego pensando no por que há gente que não gosta de ler. Algum tempo atrás eu com certeza xingaria uma pessoa que me dissesse que não gosta de ler, diria que é uma ignorante, uma imbecil, que livros deixam a gente mais inteligente e seres humanos melhores, enfim, descascaria o verbo em cima dela. Hoje já sou mais comedido, apenas lamento o fato e falo do meu prazer, da sensação que eu tenho lendo, na esperança que o outro se contagie com a minha emoção.

Afinal, quando o planeta não tiver mais recursos para gerar energia, todos terão que se virar com o velho Sol, que continuará iluminando os povos, e com os livros, a única mídia que não precisa de uma fonte de energia (depois que está impresso, leia-se bem), é 100% portátil, a prova de vírus (mas não de manchas de café, cães e crianças pequenas) e que, dadas as suas características, exige que você se isole de todos para se concentrar. Quer prazer melhor que esse, ficar sozinho, em uma época em que o convívio social é quase uma obrigação?

Vida longa aos livros!!

4.5.05

Decisão

O único efeito colateral do Viagra é a queda de cabelos.

O único efeito dos remédios contra a calvície é a brochice.

Portanto, carecas, uni-vos!! Temos algo a celebrar...

29.4.05

Idéias esdrúxulas

Conversar com crianças é sempre um barato. Ontem, quando levava os meus step-filhos para a escola, começou uma conversa mais ou menos assim:

- Eu só vou parar de beijar a mãe de vocês no dia em que peixe sair correndo pela praia!
- Ou no dia que a Dina e o Malloy (dois cães) aparecerem voando na janela do nosso quarto!
- Ou quando uma baleia correr pela floresta atrás de um tubarão!
- Eu vou sair correndo para não ser mordida pelo tubarão!
- E se tiver um papagaio nadando debaixo d'água? Glub, glub...
- Problema vai ser o elefante voar.
Os dois:
- Por quê?
E eu:
- Já viram cocô de pombo? Pois é, tente imaginar cocô de elefante em cima de você...
E foram vários "ecas" e "blearghs" até a escola. Mas a imagem persiste, cagada de elefante...

26.4.05

Chega de seriedade!!

Oi, voltei!!

Perdão pelo longo tempo ausente, mas muitas coisas aconteceram, não contarei nenhuma delas por aqui, pois você não tem nada a ver com isso. O que importa é que voltei e, seguindo a recomendação (sensata) de minha namorada, abandonarei o tom serioso demais que este blog seguia. Chega de seriedade, o lance é nonsense.

Daí que imaginei: o que seria de Jesus se a gente pudesse usá-lo como marca? Quer dizer, usá-lo em mais coisas do que a Igreja já usa para vender os seus produtos e serviços.

Por exemplo: Vinícola Jesus, há dois mil anos transformando água em vinho!

Ou ainda, Financeira Jesus, veja seu dinheiro se multiplicar como peixes!

Que tal o Hospital Jesus? "Levanta-te e anda é o nosso lema, cura garantida!"

Ou ainda o curso de retórica Jesus. "Aprenda a falar por parábolas e seja compreendido."

Sem falar em esportes radicais. "Caminhe sobre as águas com esquis Jesus".

Ou a Escola Jesus. "Vinde a mim as criancinhas". Pensando bem, pode ser até um hospital pediátrico, slogan perfeito.

Tem mais alguma idéia? Manda pra cá...

Amanhã tem mais besteira! Tchau!

14.3.05

Um jeito diferente de ver o mundo

Softwares colaborativos. Esse é um termo que vai ficando comum a cada dia que passa. Basicamente, isso se trata de gente que, independente de onde estiver no mundo, trabalha em um mesmo projeto graças à internet. O potencial de criação é praticamente infinito.

Veja só, já hoje filmes de animação 3D são feitos em quase todo o planeta. Um cara faz um roteiro, passa as necessidades de animação para um grupo de pessoas, que repassa detalhes dessa animação para quem as faz. E cada criador pode decidir se o conteúdo fica público ou não. Por exemplo, um cara foi contratado para fazer um vaso 3D. Feito o vaso, usado no filme, ele pode decidir se deixa o vaso público, isso é, em qualquer outro filme que for preciso usar um vaso, e se aquele vaso preencher os requisitos, basta baixar o código do vaso e pronto.

Mas pense em outras coisas. Um livro pode ter infinitos autores, infinitos finais, todos dependendo da quantidade de pessoas que se dispõe a colaborar com ele. (Será que no caso de muitas pessoas escreverem sobre um tema, as conclusões convergem para um mesmo lugar?).

Ou o cara pode criar um riff de guitarra, por exemplo, e jogar o riff na internet. Um baterista pega o riff e faz uma base em cima, e joga de novo na net. Daí aparece um baixista, ou um tocador de bongô, ou um citarista, sei lá, o instrumento que você quiser, e temos a cada nova contribuição uma nova música.

O lance é muito bacana. Restará saber se alguém ganhará dinheiro com isso, e talvez esse seja o problema em tornar tudo ainda mais popular.

10.3.05

Seca

Um mês depois é necessário retomar o teclado e recomeçar a escrever. Sobre qualquer coisa, absolutamente qualquer coisa. E quando as idéias não vêm à cabeça, é necessário inventá-las, buscá-las em algum lugar, extrair leite de pedra para poder colocar algum texto na página.

E talvez seja o tempo, mas há uma escassez de idéias. Todas as que aparecem são como que fotocópias mal-feitas de idéias antigas. Não há nada novo acontecendo. Claro que isso é uma grande mentira. Todo dia acontece alguma coisa, ainda que pequena e praticamente imperceptível. É no longo prazo que vemos os efeitos de tudo o que aconteceu, a somatória mostra o quão importantes foram os pequenos movimentos aparentemente desprezíveis do cotidiano.

Mas esses são acontecimentos. Falava de idéias e perdi o prumo. Não há idéias novas. Em política, não há nada revolucionário, e continuam tentando reformar a democracia para deixá-la melhor. Na economia, a divisão continua profunda entre os defensores do estado mínimo, por não dizer ausente ou inexistente, e os intervencionistas totais, paladinos da centralização e de planos qüinqüenais (uma das palavras mais bacanas que existe). No futebol, morreu o Rinus Michels, que criou a última novidade, o futebol total, em 1974.

Faltam idéias novas. Cabeças novas há muitas, mas parecem que cedo são enquadradas nas grandes correntes do pensamento atual, e a pluralidade de opiniões acaba. Há pouco espaço para o novo. O Fórum Social Mundial produziu muitas alternativas que já são discutidas há pelo menos 30 anos. E só existe porque gera movimentação econômica, a contradição em si.

As idéias são as mesmas, resta esperar que as pessoas pelo menos não o sejam.

8.3.05

Férias

Oi, sei que faz tempo que não escrevo aqui, mas hoje venho para dizer que as férias acabaram. Amanhã tô de volta, emitindo opiniões que não interessam a ninguém mais, falando sobre temas que provavelmente não tocam nenhuma outra pessoa, mas escrevendo. E como gosto disso, agüentem. Ou melhor, leiam-me!!

Hasta mañana!!

9.2.05

Business is business

Não adianta. Onde quer que o homem esteja, se o que ele estiver fazendo for popular, atrair gente e quem sabe alguma câmera de tevê, isso vira um negócio instantaneamente. E com o passar dos anos os puristas da atividade reclamarão que tudo virou um grande negócio, que os cifrões ditam a pauta da atividade e que a tradição foi para o vinagre. Já os entusiastas do capital dirão que a evolução é isso aí mesmo, que não tem como evitar, essa é a onda, e por aí vai.

Veja o que aconteceu no Carnaval do Rio esse ano. A Portela, uma das escolas de samba mais tradicionais de todas, tava atrasada no desfile. E para não perder pontos no concurso, o presidente da empresa proibiu que a Velha Guarda, aqueles simpáticos senhores e senhoras de pele enrugada parecendo ter mais de 100 anos, entrassem na avenida para desfilar. Logo eles, que vivem o ano na perspectiva daquela meia hora de travessia aos olhares do mundo.

O que aconteceu é que finalmente os velhinhos aprenderam que aquela paixão que eles tinham antigamente pelo Carnaval foi transformada em negócio. Biznes, em bom português. Cifrões mandam, e se os senhores vão atrasar a escola, fiquem de fora. “Sinto muito se o senhor vive a sua vida para estar aqui, mas essas são as regras, precisamos ganhar”.

Na Bahia também ficou assim. O axé ficou popular, e a tevê chegou em seguida, e agora só se diverte com uma certa tranqüilidade quem compra o abadá de algum bloco. Falta industrializar o Carnaval de Recife. Mas talvez o frevo não seja tão comercializável quanto os peitos e bundas cariocas e baianos. O Bumba-meu-Boi já é um negocião na Amazônia.

Alguém pode dizer que é a regra do jogo. O capital é isso mesmo, se apodera do que é popular e o transforma em pop, para gerar lucros e dividendos. Sim, essa é a regra, mas nada impede que você não concorde com ela e queira mudá-la. Um mundo sem dinheiro com certeza seria bem melhor.

2.2.05

Contradições do crescimento

"If Ireland is the best place to live," irish writer Joseph O'Connor said, good-naturedly, "God help us."

Esse é o resumo do país europeu mais parecido com o Brasil e seus dilemas nos dias de hoje, a Irlanda. Menos de uma década atrás, a Irlanda era um dos países mais pobres da União Européia. Hoje, a Irlanda é um dos mais ricos do mundo. Quase dez anos de uma política efetiva de crescimento provocou esse salto enorme.

Tão grande que os irlandeses estão desconfortáveis. Pela primeira vez em sua história eles têm a chance efetiva de erradicar a pobreza do país. No entanto, o “ser pobre” é quase parte da identidade nacional irlandesa. É como se, com dinheiro na mão, eles preferissem continuar pobres por não saberem como comer um prato cheio. O debate chega a ser surreal, pois quem quer continuar pobre?

Claro, não é bem esse o medo deles. A preocupação é perder características enraizadas no modo de ser irlandês – em especial a capacidade de rir da desgraça e o sentido de comunidade. É sabido que o dinheiro corrói essas características. A prova? Você já ouviu algum comediante suíço? Ou um atividade de bairro de Helsinki?

A Irlanda ser o “efeito Orloff” do Brasil (para os mais jovens, o mote da propaganda era “Eu sou você amanhã”). Gostaria muito de poder enfrentar esses dilemas que a Irlanda passa hoje em dia. Não sei se temos as pessoas certas na condução do país para que isso aconteça. Mas, lá como aqui, tudo é possível. Até o Lula acertar ao dizer que seremos uma potência ao final do século XXI. Só acho que não precisamos esperar tanto...

28.1.05

Fases da vida

Quando você é criança e erra, você tenta jogar a culpa nos outros e não consegue.

Quando você é adolescente e erra, se for bom de lábia, conseguirá jogar a culpa nos outros.

Quando você é adulto e erra, a culpa é sua, não há o que fazer (a não ser que você tenha um bom advogado).

E quando você é empregado, um superior erra e você leva a culpa.

27.1.05

Hospitalidade

Os brasileiros acreditam que, dentre todos os povos europeus, os mais parecidos conosco são os italianos, os portugueses e os espanhóis, não necessariamente nessa ordem, dependendo da ocasião. Mas eles estão errados. O povo europeu mais parecido conosco é o irlandês.

E isso não é conversa de bêbado. Apesar dos 300 dias de chuva que há por lá, taí um povo que não desistiu de nada ao longo dos anos. E olha que os caras se ferraram por um bom tempo. Um longo período de domínio britânico, seguido de uma independência não integral – a Irlanda do Norte continua sob a guarda da Elizabeth II –, tudo isso acompanhado de vários períodos de êxodo de sua população jovem, que foram tentar a sorte nos Estados Unidos e outros lugares do mundo.

Essa onda ruim já passou faz tempo, e agora a Irlanda é o país que mais cresce na Europa e que passou a ser um destino de imigrantes, em vez de fornecedor. E apesar disso a Irlanda mantém características de país pequeno, com cidades menores ainda. A maior cidade da Irlanda, a capital Dublin, tem um milhão de habitantes. A segunda cidade, Cork, tem apenas 130 mil. E Galway, a terceira, tem 57 mil. Ou seja, só cidades pequenas.

E em qualquer pub da Irlanda, um desconhecido só o é quando entra no bar. Alguns minutos depois, ele já é um local, e está enturmado. Como dizem os irlandeses, não existem estranhos, apenas amigos que você ainda não encontrou. E não esqueçamos nunca do nonsense que permeia todas as atividades da Irlanda. Quanto menos lógica for uma ação, mais chances de ela acontecer nesse país. Quantas vezes você ouviu falar de caras pegando carona com geladeiras duplex? E conseguindo pegar carona, o que é mais bizarro? Pois lá acontece.

A Irlanda é um tesão. Vá para lá, tome pelo menos uma Guinness por dia, e quando chegar a Dublin, vá à Porterhouse, onde você toma cervejas do tipo da Guinness (stout) muito melhores, e pronto. Você está apaixonado, e já começa a pensar em uma casinha em Dingle (que tem só 1,5 mil habitantes, mas é um tesão!). Quem sabe?

25.1.05

Ciência estranha

A ciência às vezes gasta muito de seu tempo com pesquisas de utilidade dúbia. Veja essa aqui da BBC. Se for ratificada, provará de uma vez por todas não que as mulheres são ruins ao volante, mas que na hora da baliza elas são realmente piores que os homens. Mas qual será o motivador dessa pesquisa? Quem é o financiador? E para quê?

Uma semana atrás apareceu um outro artigo dizendo que, devido à diferença cromossômica, os homens seriam mais aptos que as mulheres para a profissão de cientista. A genética explicaria o predomínio masculino na Ciência. Mas será que isso tem a ver mesmo? Me faz lembrar uma reportagem que vi tentando explicar – e não conseguindo – porque há mais mulheres enfermeiras e homens engenheiros.

Existe um prêmio paralelo ao Nobel, o IgNobel, que se dedica a trazer para o grande público pesquisas esdrúxulas como essas, que certamente concorrerão à próxima edição. A lista dos premiados de 2004 é fantástica. Em Medicina, ganhou uma pesquisa sobre “Os Efeitos da Música Country no Suicídio”. O prêmio de Física estou os efeitos do bambolê. Na área de Saúde Pública, ganhou um caboclo que tentou validar cientificamente a regra dos cinco segundos, a de que você pode comer uma comida que tenha caído ao chão desde que ela tenha permanecido menos de cinco segundos. E por aí vamos.

Muita gente questiona a utilidade da pesquisa aeroespacial. Afinal, ainda não acabamos com a fome no mundo, a febre amarela e a malária, doenças até um certo ponto simples, matam, a falta de saneamento básico é considerada umas das principais causas mortis no Terceiro Mundo, mas mandamos uma sonda para uma lua de Saturno. E o que dizer de uma pesquisa que ganhou um IgNobel esses tempos, que provava que o lado com manteiga do pão tinha mais chances de cair com a face virada para o lado do tapete? Inutilidade é apelido...

24.1.05

O fim está próximo

E dessa vez a notícia é quente. Um relatório mostra que, se nada for feito para coibir as emissões de gás carbônico na atmosfera, em 10 anos ela atingirá o limite de tolerância, e a Terra passará por modificações permanentes, entre elas o derretimento de parte das calotas polares e provavelmente o fim de Veneza e outras cidades ao nível do mar.

E as notícias ruins não são apenas essas. Recentemente descobriram que a poluição tem dois efeitos principais na atmosfera. Um já é manjado, que é esquentar o planeta. Já o outro era desconfiado, e só recentemente foi confirmado: as partículas sólidas suspensas no ar refletem a luz do sol. Ou seja, a poluição ajudou o planeta a não esquentar tão rápido.

Esse dado, até então ignorado pelos cientistas, mostram que, se a poluição parasse totalmente hoje, amanhã entraríamos em uma nova era glacial, pois a luz do sol seria refletida por essa poluição sólida, e o calor da terra escaparia, pois não haveria mais estufa.

Resumo da ópera: se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Arriscamos ou morrer encalorados ou congelados, e a curto prazo não há nenhuma solução a vista. Quem sabe o negócio não seja se congelar, esperar que a coisa melhore, e depois voltar a viver. Mais ou menos como o Capitão América, o Buck Rogers e outros que ficaram congelados um tempo.

O risco é voltar em um mundo pior ainda. É, melhor ficar por aqui mesmo, e tentar consertar o que der.

21.1.05

Céus de chumbo

“O céu estava coberto de nuvens negras e ameaçadoras...” Esta é a fala do narrador de “Rocky Horror Picture Show”, versão brasileira (ou deveria dizer curitibana, já que os caras nunca fizeram uma turnê por aí?). E desde que ouvi essa frase, não há como não pensar nela quando vejo o céu em diversos tons de cinza.

Na peça, Brad e Janet estão a caminho da casa do professor Scott, “em uma viagem de agradecimento, pois havia sido ele que os apresentara um ao outro”. Claro que a viagem não dá certo, pois do contrário não haveria a peça de teatro, e logo não haveria o filme que rodou o mundo, dando origem a tantas outras versões que... Bom, desnecessário continuar.

As nuvens não amedrontam na vida real. Estão ali, paradas, cumprindo a sua função, que sinceramente desconheço. Vêm e vão carregadas pelo vento, em ocasiões descem à terra na forma de garoa, chuva ou enchurrada, e podem desde refrescar um pouquinho a gelar de vez, sendo que podem até esquentar ainda mais, se estivermos no verão e levarmos na cabeça uma tempestade tropical daquelas.

São apenas nuvens, que flutuam sobre nossas cabeças. Mas não há pessoa que fique contente vendo o céu cinza cor de chumbo. Talvez quem realmente não possa pegar sol nunca na testa. Mas mesmo esses preferem o boné e um dia de sol que as nuvens. Ou agricultores desejosos de uma pausa no sol inclemente que queima a plantação.

Pouco importa a opinião dos homens. Lá em cima elas continuam, incólumes, sem se afetar com a opinião dos homens. E não nos resta que esperar que um vento as leve para longe daqui...

19.1.05

A lógica do capitalismo

O capitalismo tem mecanismos muito eficientes para praticamente anular a vida do indivíduo e tornar a vida corporativa a “verdadeira” existência sua. Sem que se perceba, o homem acaba sendo englobado pela corporação, e esquece a sua vida pessoal.

Veja só. Hoje as pessoas trocam muito de empregos e de cidade também. A cada nova cidade, o primeiro grupo de relações que a pessoa monta é o dos colegas de trabalho. Como o ser humano quer e precisa de relações sociais extra-trabalho, ele começa a sair com seus colegas. E como ainda não há conhecimento pessoal suficiente, geralmente o tema das discussões é o trabalho. Assim, continua-se trabalhando mesmo durante o horário de lazer.

E quando a pessoa já está ambientada, que consegue descobrir em meio aos colegas de trabalho pessoas com os mesmos interesses, e a partir delas outras pessoas interessantes, a pessoa troca de emprego ou de cidade. Se troca de emprego apenas, há uma chance de que os vínculos se mantenham. Se troca de cidade, o esforço vai pro brejo.

Muita gente não percebe o mecanismo quase perverso que há por trás dessa lógica, e acusa a pessoa que não participa do lazer-trabalho de ser antipática, de não querer se integrar, e coisas assim. Não percebe que pode e deve haver vida fora da empresa, e que ficar restrito a ela é uma castração da individualidade.

O capitalismo encerra uma série de armadilhas que são relativamente difíceis de serem percebidas no dia-a-dia. Infelizmente, essa é a realidade atual. Resta ter fé que esse modelo, que não se sustenta a longo prazo, seja trocado por um mais humano.

18.1.05

Preguiça

Hoje não.

Vá ler meu site, vai, e aumente a contagem de visitantes lá, por favor.

17.1.05

O drama do criador

O artista está em uma encruzilhada. A cada dia, há mais e mais formas de se distribuir material pela Internet. Mas as maneiras de se cobrar por esse material se reduzem consideravelmente. Como sobreviver em meio a um manancial de informações e produções artísticas gratuitas, como cobrar pelo seu trabalho?

Além disso, há outra ameaça/oportunidade no horizonte. Com a internet, as chances de se trabalhar em equipe se multiplicaram consideravelmente. E isso não significa que os membros da equipe precisam se encontrar fisicamente. Pela rede, é possível distribuir o trabalho para pessoas localizadas em qualquer lugar do mundo, recolher suas contribuições, juntar tudo em algum lugar, devolver o material pronto para os colaboradores aprovarem, e publicar. Uma música pode ter cem autores. Um vídeo pode ter mil colaboradores, cada um com menos de 30 segundos de trabalho efetivo na tela (ou cerca de uma semana de trabalho nos bastidores), e como pagar essa gente?

Artistas sempre haverá. A humanidade não vive sem arte, e ainda que as discussões sobre os porquês do homem ter pintado as paredes das cavernas seja inútil atualmente (afinal, eles pintaram por alguma razão, religiosa ou não), a arte continuará sendo feita. O que pode mudar talvez seja o caráter do artista. Não mais em busca de dinheiro, mas em busca de prazer pessoal. Um emprego que lhe garanta a subsistência durante o dia, e arte para o resto do dia. Enfim, todos de volta a antes do século XX, quando o artista existia única e exclusivamente por causa de um mecenas. Será que o futuro é o passado?

14.1.05

Longa viagem

Os seres humanos conseguiram colocar uma sonda em uma lua de Saturno. A coisa viajou sete anos até chegar lá. Todas as pessoas envolvidas nessa viagem tiveram que calcular muita coisa para impedir que ela batesse em algum lugar no meio do caminho, para que os planetas e outros corpos celestes exercessem a atração certa para impulsioná-la pelo espaço, e tantos outros cálculos para que ela chegasse sã e salva lá.

Estranhamente, é mais fácil colocar uma sonda lá do que resolver alguns problemas de trânsito por aqui. Sem menosprezar nenhuma inteligência envolvida na questão, e sem o maniqueísmo babaca que diz que deveríamos acabar primeiro com a fome e a poluição na Terra, para então sair explorando o Cosmos, acredito que seja realmente mais fácil colocar uma sonda em Saturno.

Isso porque, em seu caminho, ela só encontrou planetas, meteoros, meteoritos, luas, enfim, objetos sem vontade própria, regulados por leis matemáticas. Aqui na Terra, temos um detalhe que atrapalha qualquer planejamento de longo prazo: o ser humano, esse bicho imprevisível, que não dá sinal quando vai virar à direita ou à esquerda, que esquece de nos ligar avisando que vai para outro lugar, em vez de vir para casa, que não sabe o que quer e que, por isso, tem direção variável com velocidade inconstante.

Assim, chegar incólume de um bairro a outro em uma grande cidade torna-se uma viagem muito difícil. Se for na hora do rush, então, a complexidade levaria qualquer cientista da NASA, da ESA e outras agências espaciais por aí à loucura. Já imaginou o cara tendo que lidar com uma fileira de semáforos não sincronizados entre a Terra e Marte? Ou um engarrafamento de asteróides logo ali na curva de Júpiter, onde a sonda pegaria velocidade? No way, man...

13.1.05

Patrulha do Gerúndio

O brasileiro que se pretende culto adotou esse hábito horrível de colocar o gerúndio no futuro. É “vamos estar fazendo”, “irá estar recebendo”, “vamos estar lhe enviando”, e por aí vai. E quem gosta da língua portuguesa, quem tem um mínimo de bom gosto musical (sim, porque gostar de um idioma é basicamente uma questão de gostar de música, gosta-se da música desse idioma) fica ultrajado.

O ultraje em si não é pelos ignorantes que foram a uma péssima escola e daí utilizam erradamente. É que esse pessoal escutou alguém pretensamente mais culto, algo como um político (pfff!!!) ou, mais provavelmente, um ator ou uma atriz de novela, dizendo essa imbecilidade inexistente na língua, o futuro do gerúndio. “Vamos estar cobrando”.

Porra, não há problema no gerúndio. “Estou escrevendo essa carta”, pode até ser usado, mas para isso até já existe o presente: “escrevo essa carta”. E todas as declinações possíveis dentro disso.

Mas a merda é traduzir direto do inglês uma construção verbal que eles têm, veio nos primeiros manuéis de telemarketing, e qual um vírus pegajoso grudou nos operadores de call centers, verdadeiros propagadores dessa praga do futuro do gerúndio: “We will be sending you”, ou, em português idiota: “nós vamos estar lhe enviando”, ou, se quiser algo correto: “Nós lhe enviaremos”. Não é muito esforço usar o correto, economizam-se letras e saliva. Mas não há essa percepção. Há tempo de sobra para tudo, inclusive para ser burro.

Por isso, faço parte da patrulha do Gerúndio. È melhor que uma guerra ao dito cujo, pois a patrulha disciplina o suo, ensina meios melhores, educa para a prática correta, e protege a última flor do Lácio, essa donzela violentada e alquebrada que é o português, da sanha de seus últimos violentadores.

12.1.05

David

O ser humano em geral, e o brasileiro em particular, tem uma predileção por David, isso quando ele luta contra Golias. Mas isso não se resume a uma história bíblica, mas se extende por diversos campos da vida cotidiana.

No futebol, por exemplo, os brasileiros sempre torceram pelo time mais fraco (desde que esse não jogasse contra o Brasil, é claro). O time dos Camarões, por exemplo, era o segundo time do Brasil, até que começou a jogar muita bola. Enquanto eram meio ingênuos, todo o Brasil acompanhava seus jogos. Agora, um pouco menos.

E assim é. O Brasil torce para o Barrichello, por exemplo, decididamente mais fraco no confronto com o Alemão. O Brasil até toma Coca-Cola, mas torce (ou torcia) pelo Guaraná. A Fiat, uma fábrica não muito grande no resto do mundo, aqui tem um mercado enorme.

E ontem o Steve Jobs, o cara da Apple, lançou o Mac Mini. O treco é bonito para caramba, e garanto que no Brasil, assim como o resto do mundo, torce para que o negócio decole, e a Apple saia do buraco em que está há muito tempo. Todas, praticamente todas as pessoas que lidam com um computador sem serem experts (ou seja, sem conhecerem Linux) querem um que não sofra tantos ataques de vírus, que seja bonito, que não trave tanto, que seja simples, enfim, tudo o que a Apple sempre foi, mas a um preço acessível, que é a promessa de agora.

E, claro, ninguém mais agüenta o Bill Gates faturando alto vendendo programas que não funcionam direito, simplesmente porque ninguém faz alternativas (tá, o Linux pode ser uma alternativa, mas ainda não é). Bill Gates talvez tenha sido David na universidade, mas desde que se aliou à IBM para incorporar o DOS já nas máquinas vendidas, virou Golias. E tá na hora de trocar o disco.

11.1.05

Sotaque

Curitibano que sou, tenho um sotaque pra lá de carregado, como qualquer pessoa que me ouviu falar o número sete, ou falar do Vanhone (candidato derrotado à prefeitura de Curitiba, que na verdade se chama Vanhoni), navegar na internete, ter um blogue e consultar um adevogado.

Até hoje, a frase típica para se tirar sarro de um curitibano e seu sotaque era a “leiTe quenTe dói no denTe da genTe”. Dizem que o curitibano por excelência estala o te de uma maneira que dói no ouvido, muito mais do que no dente.

Mas a frase é meio ambígua. Afinal, os gaúchos também puxam o te barbaridade, e nem por isso eles tomam leite quente por lá. Os catarinas não puxam o te, mas também o pronunciam com clareza, o te não vira um “tch” como fazem os cariocas e praticamente todo o resto do Brasil, que toma “leitch quentch”.

Então, proponho uma nova frase pro sotaque curitibano: “A fábrica do Matte Leão não é na Sete de Setembro. A do Todeschine era”. Quem é curitibano entende. Quem não é tira sarro do sotaque. E estamos conversados.

P.S.: Visite meu site, o Palavrório, que está em novo endereço, sem janelas pop-ups.

10.1.05

Recomeço

Férias, ou qualquer pausa de uma semana para mais na qual você não pensa em trabalho, traz bênçãos e maldições, dependendo de como você encara as coisas.

O momento de pausa significa o fim da rotina, a imprevisibilidade, a ausência de programação, o dolce far niente, enfim, um break completo no que você faz praticamente todo dia. Para alguns, essa é a benção suprema, poder decidir o que vai fazer no minuto seguinte no minuto precedente, ou no mesmo minuto.

Algumas pessoas não suportam isso, e mesmo em férias escolhem um pacote turístico em que praticamente todos os momentos de descanso são vigiados e cronometrados. 7h, saída do hotel. 7h15, visita à Fonte dos Prazeres de algum lugar, com oferta (obrigatória) da moeda à fonte, com pedido (obrigatório) de desejo. 7h23, início da peregrinação pelos corredores do castelo de lugar nenhum.

O retorno ao trabalho também guarda sentimentos controversos. Alguns gostam de trabalhar, e realmente ficam contentes com o retorno, ainda que, na hora do almoço, já estejam reclamando do chefe, do acúmulo de tarefas que foram adiadas, do salário que não subiu, do desconto da contribuição sindical compulsória, e essas coisas.

Já há gente que volta porque tem que voltar, e unicamente devido ao salário que recebe. Não há maldição pior que a rotina, as mesmas tarefas dia após dia, as mesmas pessoas, a mesma conversa, o mesmo assunto, até as próximas férias.

Entre uma e outra, você escolhe. Afinal, a maldição de alguns é a benção de outros. Inevitável é o recomeço, você decide como ele é.