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Mostrando postagens de abril, 2026

Crônica Sartriana

O ser humano é condenado a ser livre – Jean-Paul Sartre Cada passo é uma escolha pessoal. Não há como terceirizar nenhuma responsabilidade pelas suas opções, você é quem é e faz o que faz porque você escolheu isso, e mais ninguém. Não adianta jogar a culpa nos pais, nos amigos, nos parceiros ou nos astros (aliás, bem comum essa terceirização das próprias escolhas para o esotérico, para os deuses ou o alinhamento dos planetas), a culpa é sua. E essa é sua condenação. Exercer essa liberdade radical pode assustar os outros. Dependendo de para quem você fala sua escolha, a pessoa pode se assustar. “Como assim, você é tão inteligente e quer ser vendedor de balcão?” A liberdade absoluta implica, muitas vezes, em não escutar o veredicto dos outros, por mais próximos que sejam, fazer ouvidos moucos ao julgamento alheio, encarar a censura velada quando uma escolha pode parecer contraditória para o outro. No entanto, se ela faz sentido para você, exerça o seu direito à liberdade, aproveite...

Crônica do sinal intermitente

Tem dias que a conexão é firme, não cai. Tem dias em que não há conexão. E na maior parte dos dias, o sinal sobe e desce, vai e vem, cai e levanta. Quando a mensagem entra na caixa, alegria, satisfação, o sorriso brota no rosto e encaramos o vento contrário como uma brisa que refresca. Quando nenhuma ligação se completa, tristeza, ansiedade pelo futuro, medo, noites mal dormidas, incômodo. Ainda que a vida venha como ondas, sonhamos sempre com um mar plácido, com uma leve marolinha que embale, nada de tsunamis. Mas o mundo não dá trégua, é calmaria seguida de muitas tempestades. E parece haver bem mais tormentas que sossegos. (uma lembrança vem à mente: a curva senoidal que aparecia nos osciloscópios era sempre regular, ou seja, ainda que rápida, para cada pico havia um vale, um após o outro, sem pausas nem variações). Não temos o que queremos, e quando temos, desperdiçamos. Para tentar reduzir a intermitência, é necessário subir no telhado e redirecionar a antena. Alguém precisa...

Crônica da conexão perdida

5h, toca o despertador, pula logo da cama pois o dia promete ser cheio de boas notícias! Café da manhã já focado, pensando na corrida, nas ligações a serem feitas antes mesmo do trabalho começar, nas reuniões, nos problemas que serão resolvidos, nos próximos passos a serem tomados. A corrida ajuda a manter o foco, uma hora de suor e cansaço para liberar a mente para fazer o que precisa ser feito. Vamos lá, manter o foco! Ao longo do dia, a realidade vai se impondo e colocando alguns obstáculos. Nem todas as ligações são atendidas do outro lado, alguns problemas não poderão ser resolvidos pois tem pendências de outros atores, os passos estão definidos, mas há algo que não se encaixa, a direção não parece clara. Assim, o que pela manhã era conexão total com um futuro melhor vai se perdendo minuto a minuto. No fim do dia, nem bombril na antena refaz a conexão. Você até tenta se animar, sai de casa, vai a uma exposição, encontra algumas pessoas, mas nada adianta e o foco foi perdido....

Crônica da desconexão necessária

Feriado prolongado, mochila nas costas rumo a um sítio perto da cidade e ao mesmo tempo longe de tudo. Lá não há sinal de celular, só um wi-fi rural para ser utilizado caso aconteça uma emergência daquelas que precisa de contato com o mundo. Para alguns, pode ser apenas mais uma atividade escoteira. Mas para quem está estressado com tudo, pode ser uma oportunidade de se conectar com o que realmente importa. Longe da sede do sítio, internet é uma lembrança remota, o celular vira máquina fotográfica e relógio e nada mais. Ao longo dos dias, os problemas se resumem a saber se a comida está pronta, se todos querem tomar banho de rio de novo ou não, se as próximas atividades já estão programadas. Quando acontece alguma treta entre os escoteiros, a mais grave é um deles não querer ir buscar água, que é realmente longe do local do campo. Quem dera todas as tretas da vida fossem assim fáceis de serem resolvidas. Assim, a cabeça desanuvia, o medo do futuro e as desgraceiras do cotidiano ...

Crônica da incompetência palpitante

Há algum tempo circulou um meme pela internet que dizia assim: “Não se pode ganhar todas, mas perder eu vi que dá!” Se for feito o balanço diário, parece que há mais derrotas que vitórias, e estas são tão pequenas que nem entram na contabilidade, logo, o dia parece um campeonato do Botafogo ou do Coritiba dos velhos tempos, zero pontos. É a frase do Axioma do Botafoguenese escrito no Livro 1 da Lei de Murphy, escrito pelo Arthur Bloch: “Você não pode ganhar, você não pode empatar, você não pode nem mesmo largar o jogo.” Faltou treino para entrar em campo? Faltou combinar com os jogadores do próprio time as regras do jogo? Faltou equipamento, chuteira, calção, bola? O que faltou que as derrotas vieram uma após a outra, implacavelmente? Com a mão na cabeça, faz-se a resenha do dia. Talvez no jogo um tenha faltado o timing, talvez no dois tenha faltado explicar melhor a tática, no três não, estava tudo em dia, mas algo foi deixado para trás, ainda não se sabe bem o quê. O pior de t...

Crônica da cacofonia onipresente

Nem se percebe, mas o mundo anda tão barulhento, mas tão barulhento, que o silêncio do meio da madrugada ou sobre uma montanha ou ainda acampando longe do tumulto chega a estranhar. Desde as primeiras horas da manhã, o celular começa a apitar, os carros buzinam, as crianças indo à escola riem (ainda bem), os mendigos falam alto, as tevês e rádios e redes sociais gritam. Não há moderação no volume, o barulho vem de toda parte. A confusão acaba chegando aos pontos mais escondidos do cérebro, atrapalhando o pensamento. Fica impossível focar, pensar em apenas um tema, resolver um problema de cada vez. Você começa a desenvolver uma tarefa e é atropelado por uma mensagem, por uma ligação, por uma notícia. Hoje em dia, conseguir desligar tudo ao redor e ficar alguns minutos que seja fazendo apenas uma única coisa é cada vez mais difícil. Não à toa começam a proliferar os espaços de desconexão, locais aonde o celular não chega, a internet está desligada e as tevês são inexistentes. A pol...

Crônica da dúvida persistente

Toca o despertador: levantar ou mais 15 minutos? Vai para a cozinha: fruta ou sanduíche ou ovo? Abre o guarda-roupas: camisa lisa ou com detalhes? Calça: clara ou escura? Corrida ou musculação? A pé ou de bicicleta? E assim vai o dia, uma dúvida após a outra tendo que ser resolvida, uma decisão após a outra tendo que ser tomada, e siga em frente. Todas essas dúvidas, porém, são fáceis de resolver. E eventualmente nem gastam fosfato, pois tanto faz realmente se a calça é clara ou escura, se a camisa tem bolso ou não etc e tal. Essas são as dúvidas que não entram na mochila, não pesam sobre os ombros, são apenas pequenas distrações ao longo do caminho. As grandes dúvidas, porém, persistem. Escolhi o caminho profissional certo? Escolhi a namorada correta? Fui desescolhido por culpa minha apenas? Fico ou parto? Essas questões permeiam o dia, a cada instante, a cada momento. E já faz bastante tempo que ele está com essas espadas de Dâmocles sobre a cabeça. Mesmo que tome uma decisão...

Crônica da inércia persistente

Sonhos são estranhos. Será que eles nos dizem algo sobre o que estamos pensando ou remoendo na vida real? Será que são uma porta de comunicação com o etéreo, o além do mundo físico? Muitos dizem que sim, que os sonhos são uma espécie de subproduto da digestão cerebral dos infinitos pensamentos que temos durante o dia. Por favor, não confunda sonho com sono, esse sim já cientificamente provado como importantíssimo para a sanidade mental. Isso porque nem sempre lembramos dos sonhos. Raras vezes acordamos com todo o roteiro do que foi sonhado. Mais fácil lembramo-nos de fragmentos deles, daquele pedaço que impactou mesmo, que parece refletir alguma situação cotidiana. Já faz algum tempo que em meus sonhos, sabe-se lá em qual situação, eu tento correr. Eu já sei meu ritmo de esteira, meu ritmo de rua, sei do que sou capaz na corrida, mas no sonho, nenhum pé quer sair do lugar. Dar um passo significa carregar um peso gigante. Seria como se um cidadão nascido na lua, crescido naquela...

Crônica da partida iminente

O sonho é recorrente. Estou em algum lugar no estrangeiro, normalmente na Itália (mas nem sempre), e em alguns instantes, no máximo no dia seguinte. E ainda tem um monte de coisa para fazer, coisas práticas, burocráticas. No último sonho, era um domingo de tarde e eu olhava para todos os livros que eu precisava encaixotar e despachar pelo correio no dia seguinte, sem saber se daria tempo de passar em alguma agência para fazer isso, pois o voo era cedo também. E daí começa a correria. Em geral, o voo é sempre de volta para o Brasil. Porque ainda não consegui elaborar. Desde o primeiro período morado fora, nem a juventude foi capaz de me afastar da vontade de voltar, de construir algo. Conheci pessoas que estavam viajando a cinco, dez, quinze anos. Pessoas legais, interessantes, mas cheias de histórias de portos e aeroportos, de passagens, nunca de construção de algo. E eu achava que precisava construir algo, e que tinha que ser no Brasil. No segundo período, já um pouco menos impetu...

Crônica da visão turva

Três meses depois do acidente, com a visão do olho esquerdo meio embaçada, uma sensação de algo não estava no lugar, fui ao oftalmologista. “Deslocamento do vítreo”, foi o diagnóstico. Perguntei se voltaria ao lugar, ele disse que com o tempo voltaria sim. Um ano depois, a vista continuava embaçada. Na nova consulta, ele se desdisse: “não, ele não volta ao lugar. E você precisa de óculos agora”. Assim, o que antes seria uma turbidez temporária se tornou permanente. Some-se a isso a decadência normal da idade, e ver sem clareza é o novo normal. Nesse momento, o ditado “de noite todos os gatos são pardos” tem duração 24 horas. Vejo as pessoas à distância e posso avaliar formas, mas não individualizar. Pode até ser uma virtude, de longe são todos bonitos. E por serem bonitos de longe, mantenho-os à distância, não me aproximo. Precaução ou vontade de ficar isolado, não sei ainda. Mas fiquem bonitos que eu fico na minha, por enquanto é melhor assim. A visão turva talvez esteja afetand...

Crônica do excesso de visão

“O otimista é, basicamente, um sujeito mal informado”, disse uma vez o escritor Carlos Heitor Cony. Andando pelas ruas, parece que apenas as pessoas ignorantes (no sentido de ignorar algo) sorriem. Elas não sabem o que está acontecendo e, por isso, ainda conseguem sorrir. Guerra pelo Estreito de Ormuz? Não sei onde fica. Ucrânia? A praça ou a casa lá no parque? Master ? Gosto muito!!! Saber demais não traz sorrisos. A sobrecarga de informações que é colocada sobre nossos ombros, e pior ainda se você trabalha com algo onde ter noção do que está acontecendo é valorizado, bloqueia a risada, a diversão e o espairecer. As notícias ruins trazem outras notícias tão ruins quanto, uma cadeia viciosa que leva ao fundo do poço da alma humana. Não por acaso, a cada dia mais alguém vem às redes sociais (ironia das ironias) dizer que só alcançou a paz quando se alienou. Ver, entender, compreender e avaliar parecem caminhar em direção contrária ao sorriso e à alegria. Tudo bem que a felicidade ...

Crônica da falta de visão

O corpo acorda antes do despertador, pois a cabeça não é que parou de pensar durante a noite. Já é quase um ritual, desligar o alarme do celular e dizer ao aparelho: “pode descansar, deixa que eu trabalho”. Falar com um objeto inanimado pode parecer estranho, mas a solidão é companheira a tanto tempo que faz sentido. O estômago ronca, o café da manhã desce e o estômago continua roncando. Não há alimento que sacie o vazio provocado pelos pensamentos intrusivos da noite. “Será que vai dar ruim? Vou ter que procurar outro lugar para trabalhar? De novo? Logo agora que parecia dar certo?”. Mas a pergunta que realmente pega é: “o que você quer mesmo?” E para essa, parece não haver resposta. O corpo segue faminto, a cabeça latejando, uma sensação de algo explodirá em breve. Pode ser apenas uma mente que não consegue enxergar as perspectivas boas, apenas as partes ruins e sofridas. E assim, adiando as decisões do que o coração pede pois há uma demanda que o bolso quer (e que não é import...