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Mostrando postagens de julho, 2026

Crônica do silêncio

Chego em casa e tenho como companhia apenas um canário idoso, que já não canta mais. Eventualmente ele parece ronronar, tenta emitir algum silvo , mas não consegue. Você dá boa noite ao canário, pois é o outro ser vivo com quem você coabita. Se é sábado de noite e não há programação nem para o sábado nem para o domingo, é quase certeza que a próxima vez em que você abrirá a boca é apenas segunda. Desde o advento do ZAP (e para quem odeia áudios), falar é desnecessário, basta mandar uma mensagem. Dá para pedir comida pelo aplicativo sem falar com ninguém. Dá para fazer o mercado sem falar com ninguém. Comprar roupa, livro etc, tudo o que antes necessitava de uma ligação e um mínimo de interação humana, hoje não precisa mais. E assim, vamos desaprendendo a falar. Será que, com o passar do tempo, nosso vocabulário se reduzirá? Será que esqueceremos o significado de palavras pouco comuns, como apanágio, efeméride, tergiversação etc? Será que o conjunto faringe/laringe irá se reduzindo ...

Crônica da dissimulação

- E aí, meu amigo, a quanto tempo? Tudo bem com você? “Não, tá tudo uma merda. Estou me sentindo sozinho, fracassado, sem esperanças, cansado de tudo, com vontade de mandar todos à merda e ficar ainda mais sozinho, me segurando para não encher a cara diariamente...” - Tudo beleza sim, como manda o figurino. E você, como está? - Estou bem também. O que você anda fazendo? “Mandando todos para a pqp! Trabalhando que nem um camelo e não ganhando nada! Me preocupando com os problemas dos outros em vez de pensar nos meus! Adiando decisões importantes porque acho que devo alguma coisa para alguém! Pensando em como pagar contas, em como ressarcir gente, em como criar dinheiro! Deixando de lado o que gosto de fazer para fazer o que tenho que fazer!” - Mais do mesmo, sabe como é, né? Trabalho, voluntariado, uma ou outra festa de vez em quando, um barzinho... Vamos levando. - Maneiro! Pô, precisamos nos ver, que tal na sexta no fim do dia? O que você acha? “Acho uma péssima ideia....

Crônica das distâncias

Em algum momento de sua vida, você estará distante de tudo, de todas as maneiras possíveis. Por exemplo, você pode estar distante fisicamente de sua casa, ou do lugar que você considera casa, ou de algum lugar que você deseja conhecer muito, como o Tibete, ou a Austrália, sei lá (falando de um ponto de vista brasileiro, claro). Ou você começa a se lembrar de distâncias temporais, daquele tempo em que tudo era possível em sua vida, todas as possibilidades estavam abertas, mas um tempo que já não volta mais. Ou a distância do que acontecerá no futuro (bom ou ruim), que deve ser suportada até o evento esperado (um show, uma viagem, um pagamento extraordinário, o que for). Há distâncias piores de suportar. Estar próximo fisicamente de alguém e sentir que essa pessoa está a quilômetros e quilômetros de distância, que não há nenhum ponto de contato entre vocês dois, é horrível. E fica pior quando você tenta encurtar a distância, mas a corda lançada não encontra nenhum ponto de fixação, n...