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Ambigüidades

Todo dia, no caminho para o trabalho, estou propenso à poesia. Vou de bicicleta, em um ritmo mais calmo que o resto das pessoas, escutando música, cheirando grama molhada de orvalho, passando por caminhos onde há gente caminhando, ainda há pássaros, eventualmente o trem ao lado me faz companhia. Aprecio os quintais das casas que ainda existem – casas e quintais – e lembro de um tempo mais simples, mais calmo (me lembro de meu vizinho, o Júnior, rapagão alto à beça que pulava a cerca de casa sem usar as mãos, como um corredor de 110 metros com barreiras), em que havia tempo para brincar na rua – era possível brincar na rua. Aí eu chego ao trabalho, cheio de poesia na cabeça, e ligo o computador com o nobre objetivo de escrever alguma coisa nesse sentido. E nos últimos três meses sou soterrado pela avalanche de trabalho – muitas vezes insensato e sem objetivo. Aí a poesia que havia pela manhã vai se esgotando, vai diminuindo, até ser completamente apagada por números, cifras, tabelas, ap...

Um grande vazio

Está na capa da Carta Capital, um milhão de brasileiros tomam Prozac diariamente. Na Inglaterra, já há traços do anti-depressivo na água dos rios. É Prozac que sai no xixi dos ingleses. A fabricante do Prozac depende deste produto que representa 25% de suas receitas. O que há de errado no mundo? A maior parte das pessoas vive existências sem sentido, em um mundo que não oferece grandes perspectivas de vida futura. Os objetivos são quase todos eles materiais: ter uma casa grande, ter um emprego bacana, que me pague bem, comprar um carro, viajar etc. Não há objetivos morais ou espirituais na maioria das pessoas, ainda que a maioria delas almeje uma vida calma em família e junto aos amigos. Algo se perdeu nessa trajetória. A rotina é de desempenho, de busca incessante de lucro (e estou nessa também, aplico na bolsa de valores...), de conquistas. Parece linguagem de guerra. Conquistar mercados, aumentar o patrimônio, ter mais, mais, mais... E se você trabalha em uma grande empresa, você se...