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Mostrando postagens de janeiro, 2008

Assincronia

O casal de namorados está parado na esquina se despedindo. Pode não ser um casal de namorados ainda, parecem mais um par que está prestes a se tornar um casal de namorados. Isto porque não estão já se beijando, se abraçando, aquele abraço forte de quem tem a absoluta certeza de que será a última vez em que eles se verão, mas que também traz a absoluta certeza de que eles se verão dali a pouco. Ainda não há esse beijo, esse abraço. Há apenas um encontro de mãos e um cruzamento de olhares. Olhares que revelam desejo, mas que ainda não é concretizado. Eles se despedem com um beijo de um na bochecha de outro. É daqueles beijos que pára no meio do caminho, entre a boca e a bochecha. Um beijo meio tímido, o último que antecede o verdadeiro beijo. Ele fica no meio do caminho e, sem coragem de rumar ao centro da boca, deixa aquele delicioso gosto nos lábios de "quero mais, venha logo", mas que por alguma razão há uma timidez no ar que não deixa o casal concretizar o desejo de ambos....

Lugar correto

Escutei de um professor uma frase capital, que norteia-me desde então: “Se você não está feliz em seu trabalho, significa que você não é o talento certo para a empresa”. Li a frase da seguinte maneira: eu tenho talento sim, mas os talentos que tenho não servem naquele lugar, devo procurar outro onde meu talento seja melhor utilizado. Daí eu pensei que a questão do talento certo pode ser aplicada a praticamente qualquer coisa na vida. Se você está em uma relação que não te satisfaz, você não é o talento certo para a tua parceira. Não quer dizer que você não seja bom, nem que ela seja boa demais, apenas que não casou oferta e demanda. Se com os parceiros de bola você não se afina, não consegue entrosamento (e não tem nada a ver com ser um perna de pau, apenas de curtir a suadeira), deve ser porque você não fala a mesma língua que eles. Vai que eles realmente competem entre si, quando tudo o que você quer é dar umas corridas e, quem sabe, marcar um gol, sem se ligar no resultad...

Defecando

Deve haver um número ilimitado de cagadas que um ser humano pode cometer ao longo de uma vida (claro, vamos nos limitar a uma encarnação pois se entrarmos nos méritos das cagadas que podem ser feitas nas múltiplas encarnações, faltará latrina). Ainda esta manhã, cometi mais uma. Não chequei o endereço da reunião de meus dois chefes em outra cidade. Assim, logo cedo, enquanto me preparava para dar uma bela cagada (esta, literal), toca o telefone com minha chefe me dizendo que eu havia feito uma cagada (esta, metafórica). Putz, que merda!! Basta uma nova mancada para nos lembrarmos de tantas outras que cometemos ao longo da vida. Me lembro sempre de quando errei o dia de um exame de Língua Inglesa que vinha da Inglaterra, ou seja, inadiável e sem jeitinho para consertar. Tive que praticamente me ajoelhar na frente da gringa que cuidava do exame para me deixar fazer a prova (desde que eu não contasse para ninguém o que tinha acontecido). Foi mal, muito mal. Os porretes ...

Old Friends

Old friends, Old friends Sat on their park bench Like bookends. A newspaper blown though the grass Falls on the round toes Of the high shoes Of the old friends. Old friends, Winter companions, The old men Lost in their overcoats, Waiting for the sunset. The sounds of the city, Sifting through trees, Settle like dust On the shoulders Of the old friends. Can you imagine us Years from today, Sharing a park bench quietly? How terribly strange To be seventy. Old friends, Memory brushes the same years Silently sharing the same fears Old Friends , de Paul Simon É isto, meus amigos. Podemos não nos encontrar muito, mas tenham certeza que, sem vocês, este mundo seria praticamente intolerável. Obrigado por serem!

O tempo que não volta

Em dias de chuva fecho os olhos e me lembro de quando dei a volta ao redor da Irlanda de mochila. Tá, não foi tão excitante como Tony Hawks mas foi, à minha maneira, muito bacana. Claro, a primeira relação que se pode fazer é de chuva com Irlanda. Afinal, chove pelo menos 300 dias por ano lá, o que ajuda e muito a deixar o país com os infinitos tons de verde que eles têm. Mas me lembro da chuva de quando fiz a caminhada até um lugar chamado Giants Causeway no norte da Irlanda. O dia estava meio estranho, não pendia nem para a chuva nem para o sol. Assim, de mochila nas costas, desci do ônibus em Carrick-a-Rede e comecei a caminhada pela beira do mar até Giants Causeway, 15 km distante. O tempo ameaçou fechar, e coloquei minha capa de chuva. Continuei andando. Daí o tempo abriu, com sol e tudo. Tirei a capa e continuei andando. Mas não era um tempo estável. Logo se via no horizonte o tempo fechando e a nuvem negra, carregada de chuva, chegando. E era muita chuva, ...

Tudo devagar

O começo do ano deveria ser em meio período. Afinal, mesmo que as pessoas queiram trabalhar, metade das pessoas com quem elas devem trabalhar não estão lá. Estão em férias, estão na praia, na montanha, no exterior, em qualquer outro lugar, menos no escritório. Aproveita-se que as escolas estão paradas para viajar ou, quando não há dinheiro, para ficar em casa. Infelizmente, há um pedaço do mundo que esqueceu o que é parar uns momentos. O tal do capital obriga que quase todos os trabalhadores do mundo não parem nunca. Afinal, o mercado exige lucros, os acionistas exigem resultados, alguém (que não se sabe direito quem é) está ali cobrando, desde o primeiro minuto do segundo dia do ano (pelo menos um dia eles são obrigados a conceder) que haja geração de resultados, lucros gordos e fartos para serem distribuídos. Nada contra o lucro. Foi a ausência dele que fez o comunismo ruir. É a presença dele que faz o mundo avançar. Mas a dose poderia ser um pouco menor, a pressa m...

Reflexões

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Assino uma newsletter do cartunista Doug Savage, um cartunista que desenha uma tira por dia em um post-it, chamado Savage Chikens. No dia 31 ele desenhou este abaixo, sensacional, por resumir o espírito do Ano Novo. Na prática, é isso aí, não muda nada. Temos sempre a esperança de que algo mudará, por mágica. Ou melhor, que tudo mudará. Esquecemos sempre que somos nós que provocamos a mudança e que, se não fizermos nada, nada acontecerá. Exatamente o que mudará, eu não sei. Pelo menos fiz a barba para começar o ano diferente, mudado. E também para ter a sensação concreta que pelos crescem na minha cabeça (não na parte de cima, infelizmente, mas já é algo em que acreditar).