Crônica da visão turva

Três meses depois do acidente, com a visão do olho esquerdo meio embaçada, uma sensação de algo não estava no lugar, fui ao oftalmologista. “Deslocamento do vítreo”, foi o diagnóstico. Perguntei se voltaria ao lugar, ele disse que com o tempo voltaria sim. Um ano depois, a vista continuava embaçada. Na nova consulta, ele se desdisse: “não, ele não volta ao lugar. E você precisa de óculos agora”. Assim, o que antes seria uma turbidez temporária se tornou permanente. Some-se a isso a decadência normal da idade, e ver sem clareza é o novo normal.

Nesse momento, o ditado “de noite todos os gatos são pardos” tem duração 24 horas. Vejo as pessoas à distância e posso avaliar formas, mas não individualizar. Pode até ser uma virtude, de longe são todos bonitos. E por serem bonitos de longe, mantenho-os à distância, não me aproximo. Precaução ou vontade de ficar isolado, não sei ainda. Mas fiquem bonitos que eu fico na minha, por enquanto é melhor assim.

A visão turva talvez esteja afetando a visão da vida como um todo. A falta de clareza prejudica a tomada de decisões, a avaliação correta das situações não acontece, fica tudo nublado, a mente vagueia junto com as bordas borradas das pessoas, dos prédios, das ruas, do horizonte. O foco não chega e a vida segue trôpega, tropeçante. Mas segue, sempre segue. Vai que uma nova batida meta o vítreo no lugar.

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