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Crônica da inveja das pequenas coisas

Hoje pela manhã, no elevador, encontro com os pedreiros que estão fazendo a reforma do oitavo andar. Gente simples, tranquila, que na sexta de manhã já estão fazendo grandes planos para o fim de semana. Um deles diz que já está na geladeira o fardo de brahmas junto com uma carne e que a churrasqueirinha de tambor já está limpa. O seu colega responde: “maravilha!” e saem do elevador sorrindo pegar mais uns sacos de cimento. Tenho inveja dessa calma. No caminho para o escritório, passo em frente a um café. Uma mesa na calçada está ocupada com quatro jovens, cada um com seu refri e um salgado à mão. Todos sorriem. Ninguém está preocupado com um sapato de grife ou uma camisa de marca. Presto mais atenção e vejo o crachá de uma empresa de telemarketing pendurado em seus pescoços. Não sei se eles moram com seus pais, provavelmente sim. Mesmo assim, o pouco salário deles basta para o que eles querem comprar ou gastar no fim de semana. E tenho inveja dessa idade e desse tempo. Em outro ...

Crônica da cacofonia

Uma das piores solidões que existe é a de estar em uma sala cheia de gente e não conseguir falar com ninguém. É ainda pior quanto todos falam e ninguém escuta. E se você falar, só será para aumentar a cacofonia e sentir-se ainda mais sozinho. Coloque-se também em um lugar onde todo o tema dos diálogos versam sobre um assunto que todos acham que sabem de algo, mas na prática ninguém sabe de nada. A dificuldade de escutar veio junto com a facilidade de falar. As redes sociais deram voz a todos, e voz no sentido físico mesmo, de barulho, de sons. O ruído branco que sempre houve, desde os princípios da industrialização, só fez aumentar na modernidade. Primeiro foram as chaminés das fábricas, depois as ferrovias, rodovias, rádio, televisão, aviação, os sons da construção civil etc, em uma sequência sem fim, em que um som se sobrepõe ao centro, sem que a pré-existente desaparecesse. É ainda mais barulho.  E daí a pessoa acha que se ela falar mais alto, ela será mais ouvida. Pelo co...

Crônica da fé ou da falta dela

Segundo o texto bíblico, Moisés separou as águas do Mar Vermelho para que os hebreus conseguissem fugir do faraó. Mas não há no relato passado de boca em boca até chegar ao escriba uma descrição dos sentimentos do povo de Israel que escapava do cativeiro egípcio. Será que tinham medo de que as águas caíssem sobre eles no meio da passagem, caso eles fraquejassem em sua fé? Será que temiam que um ou outro soldado do faraó conseguiria alcançá-los? Afinal, eles estavam confiando apenas e tão somente em Moisés, e este, por sua vez, acreditava piamente que Deus estava no comando. Hoje em dia as paredes do mar são outras. É o receio de não ter dinheiro para pagar as contas, de ser prensado no trânsito quando você está de moto ou bicicleta, de o coração parar de bater repentinamente, apesar de todos os exames. Caminhamos diariamente entre vários perigos, alguns reais, outros imaginários (mas muito verdadeiros na cabeça de quem os sente) e precisamos de fé, muita fé e determinação, para se...

Crônica da fuga

Na mesa de trabalho, duas telas deveriam chamar mais a atenção que o livro que está fechado ao lado. Uma briga se desenrola no cérebro: o dever imediato e o prazer imediato. O dever manda checar os indicadores, ver o saldo dos clientes, buscar aplicações, oferecer produtos etc. O prazer manda você mandar tudo à pqp e abrir o livro e continuar a leitura. O mundo está descaralhando mesmo, de que adianta ficar de olho em duas telas, quando há um mundo alternativo muito mais atraente? A cada instante, uma nova rota de fuga da realidade se abre. É o livro, pode ser uma HQ, ou então um filme, ou mesmo um parque. Em alguns casos, o algoritmo até parece conspirar junto com o seu cérebro. Na tela, pipoca uma nova trilha por montanhas conhecidas e não, ou uma prova à beira mar com baleias e o convite para correr 42 km (e nessa hora as panturrilhas gritam pra quê???), ou uma ciclovia sensacional em algum lugar do mundo. Ao telefone, o primo liga. Mais exatamente, o filho da prima. Ele quer...

Crônica do recomeço

Começar de Novo Música de Ivan Lins Começar de novo, e contar comigo Vai valer a pena, ter amanhecido Ter me rebelado, ter me debatido Ter me machucado, ter sobrevivido Ter virado a mesa, ter me conhecido Ter virado o barco, ter me socorrido Começar de novo, e contar comigo Vai valer a pena ter amanhecido Sem as tuas garras, sempre tão seguras Sem o teu fantasma, sem tua moldura Sem tuas escoras, sem o teu domínio Sem tuas esporas, sem o teu fascínio Começar de novo, e contar comigo Vai valer a pena, já ter te esquecido Começar de novo   É uma necessidade, grita alto, grito que vem do fundo. Dá um cansaço de pensar que é necessário começar de novo, mas a cada dia, parece ser imperativo fazer isso, se a vontade é viver, não apenas sobreviver. Mergulhar em si mesmo (ensimesmar-se, palavra de que tanto gosto) para descobrir quem sou eu mesmo, onde estou machucado, como me curar. Começar de novo assusta, pois j...

Crônica insone

Quando a insônia bate, parece que todas as decisões tomadas nas encruzilhadas da vida foram erradas, levaram você por caminhos ruins, escuros, esburacados, sem saída às vezes. É terrível ficar com os olhos abertos na escuridão, só intuir onde estão as paredes do quarto, o teto, as portas do armário, as gavetas do criado mudo, mas ver teu passado se repetindo e você incapaz de mudar alguma rota. E não adianta dizer que você tomou a melhor decisão que podia naqueles momentos específicos, parece que a situação pela qual você passa hoje tornou aquela decisão antiga em uma escolha errada. Obviamente não havia como prever o futuro. Você chegou sozinho a cada bifurcação (ou trifurcação, eventualmente) e decidiu para onde ir. A sensação, porém, é que na encruzilhada atual você parece prestes a tomar mais uma decisão errada, que levará a outro lugar ruim, e essa perspectiva lhe tira o sono. “Onde foi que eu errei?” é a pergunta primeira, seguida de “Quantas vezes eu errei?” e “Será que vou ...

Crônica das expectativas

Um dos grandes desafios da vida é moderar as expectativas, as próprias e as alheias. Quando você é considerado por todos uma pessoa inteligente, todos esperam de você grandes feitos, trabalhos, conquistas, vitórias. A barreira a ser superada nesses casos é invariavelmente alta. Se você não é visto pelos outros como alguém de pensamentos excepcionais, ninguém colocará grandes expectativas em seus feitos profissionais ou pessoais. Isso falando do que os outros pensam de você. O problema é quando você começa a acreditar no que os outros pensam de você. Se todo mundo diz que você pode ser um presidente de uma empresa, por exemplo, e você não chega lá, você começa a duvidar de si mesmo. “Caramba, me veem como um CEO e eu não consigo passar de analista aqui dentro, o que estou fazendo errado?” E a cobrança vem grande, seu cérebro lhe castiga, sua cabeça não para de fazer planos contra você. Talvez a pergunta principal a ser feita não é “aonde você pode chegar”, mas sim “aonde você quer...