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Crônica da cacofonia onipresente

Nem se percebe, mas o mundo anda tão barulhento, mas tão barulhento, que o silêncio do meio da madrugada ou sobre uma montanha ou ainda acampando longe do tumulto chega a estranhar. Desde as primeiras horas da manhã, o celular começa a apitar, os carros buzinam, as crianças indo à escola riem (ainda bem), os mendigos falam alto, as tevês e rádios e redes sociais gritam. Não há moderação no volume, o barulho vem de toda parte. A confusão acaba chegando aos pontos mais escondidos do cérebro, atrapalhando o pensamento. Fica impossível focar, pensar em apenas um tema, resolver um problema de cada vez. Você começa a desenvolver uma tarefa e é atropelado por uma mensagem, por uma ligação, por uma notícia. Hoje em dia, conseguir desligar tudo ao redor e ficar alguns minutos que seja fazendo apenas uma única coisa é cada vez mais difícil. Não à toa começam a proliferar os espaços de desconexão, locais aonde o celular não chega, a internet está desligada e as tevês são inexistentes. A pol...

Crônica da dúvida persistente

Toca o despertador: levantar ou mais 15 minutos? Vai para a cozinha: fruta ou sanduíche ou ovo? Abre o guarda-roupas: camisa lisa ou com detalhes? Calça: clara ou escura? Corrida ou musculação? A pé ou de bicicleta? E assim vai o dia, uma dúvida após a outra tendo que ser resolvida, uma decisão após a outra tendo que ser tomada, e siga em frente. Todas essas dúvidas, porém, são fáceis de resolver. E eventualmente nem gastam fosfato, pois tanto faz realmente se a calça é clara ou escura, se a camisa tem bolso ou não etc e tal. Essas são as dúvidas que não entram na mochila, não pesam sobre os ombros, são apenas pequenas distrações ao longo do caminho. As grandes dúvidas, porém, persistem. Escolhi o caminho profissional certo? Escolhi a namorada correta? Fui desescolhido por culpa minha apenas? Fico ou parto? Essas questões permeiam o dia, a cada instante, a cada momento. E já faz bastante tempo que ele está com essas espadas de Dâmocles sobre a cabeça. Mesmo que tome uma decisão...

Crônica da inércia persistente

Sonhos são estranhos. Será que eles nos dizem algo sobre o que estamos pensando ou remoendo na vida real? Será que são uma porta de comunicação com o etéreo, o além do mundo físico? Muitos dizem que sim, que os sonhos são uma espécie de subproduto da digestão cerebral dos infinitos pensamentos que temos durante o dia. Por favor, não confunda sonho com sono, esse sim já cientificamente provado como importantíssimo para a sanidade mental. Isso porque nem sempre lembramos dos sonhos. Raras vezes acordamos com todo o roteiro do que foi sonhado. Mais fácil lembramo-nos de fragmentos deles, daquele pedaço que impactou mesmo, que parece refletir alguma situação cotidiana. Já faz algum tempo que em meus sonhos, sabe-se lá em qual situação, eu tento correr. Eu já sei meu ritmo de esteira, meu ritmo de rua, sei do que sou capaz na corrida, mas no sonho, nenhum pé quer sair do lugar. Dar um passo significa carregar um peso gigante. Seria como se um cidadão nascido na lua, crescido naquela...

Crônica da partida iminente

O sonho é recorrente. Estou em algum lugar no estrangeiro, normalmente na Itália (mas nem sempre), e em alguns instantes, no máximo no dia seguinte. E ainda tem um monte de coisa para fazer, coisas práticas, burocráticas. No último sonho, era um domingo de tarde e eu olhava para todos os livros que eu precisava encaixotar e despachar pelo correio no dia seguinte, sem saber se daria tempo de passar em alguma agência para fazer isso, pois o voo era cedo também. E daí começa a correria. Em geral, o voo é sempre de volta para o Brasil. Porque ainda não consegui elaborar. Desde o primeiro período morado fora, nem a juventude foi capaz de me afastar da vontade de voltar, de construir algo. Conheci pessoas que estavam viajando a cinco, dez, quinze anos. Pessoas legais, interessantes, mas cheias de histórias de portos e aeroportos, de passagens, nunca de construção de algo. E eu achava que precisava construir algo, e que tinha que ser no Brasil. No segundo período, já um pouco menos impetu...

Crônica da visão turva

Três meses depois do acidente, com a visão do olho esquerdo meio embaçada, uma sensação de algo não estava no lugar, fui ao oftalmologista. “Deslocamento do vítreo”, foi o diagnóstico. Perguntei se voltaria ao lugar, ele disse que com o tempo voltaria sim. Um ano depois, a vista continuava embaçada. Na nova consulta, ele se desdisse: “não, ele não volta ao lugar. E você precisa de óculos agora”. Assim, o que antes seria uma turbidez temporária se tornou permanente. Some-se a isso a decadência normal da idade, e ver sem clareza é o novo normal. Nesse momento, o ditado “de noite todos os gatos são pardos” tem duração 24 horas. Vejo as pessoas à distância e posso avaliar formas, mas não individualizar. Pode até ser uma virtude, de longe são todos bonitos. E por serem bonitos de longe, mantenho-os à distância, não me aproximo. Precaução ou vontade de ficar isolado, não sei ainda. Mas fiquem bonitos que eu fico na minha, por enquanto é melhor assim. A visão turva talvez esteja afetand...

Crônica do excesso de visão

“O otimista é, basicamente, um sujeito mal informado”, disse uma vez o escritor Carlos Heitor Cony. Andando pelas ruas, parece que apenas as pessoas ignorantes (no sentido de ignorar algo) sorriem. Elas não sabem o que está acontecendo e, por isso, ainda conseguem sorrir. Guerra pelo Estreito de Ormuz? Não sei onde fica. Ucrânia? A praça ou a casa lá no parque? Master ? Gosto muito!!! Saber demais não traz sorrisos. A sobrecarga de informações que é colocada sobre nossos ombros, e pior ainda se você trabalha com algo onde ter noção do que está acontecendo é valorizado, bloqueia a risada, a diversão e o espairecer. As notícias ruins trazem outras notícias tão ruins quanto, uma cadeia viciosa que leva ao fundo do poço da alma humana. Não por acaso, a cada dia mais alguém vem às redes sociais (ironia das ironias) dizer que só alcançou a paz quando se alienou. Ver, entender, compreender e avaliar parecem caminhar em direção contrária ao sorriso e à alegria. Tudo bem que a felicidade ...

Crônica da falta de visão

O corpo acorda antes do despertador, pois a cabeça não é que parou de pensar durante a noite. Já é quase um ritual, desligar o alarme do celular e dizer ao aparelho: “pode descansar, deixa que eu trabalho”. Falar com um objeto inanimado pode parecer estranho, mas a solidão é companheira a tanto tempo que faz sentido. O estômago ronca, o café da manhã desce e o estômago continua roncando. Não há alimento que sacie o vazio provocado pelos pensamentos intrusivos da noite. “Será que vai dar ruim? Vou ter que procurar outro lugar para trabalhar? De novo? Logo agora que parecia dar certo?”. Mas a pergunta que realmente pega é: “o que você quer mesmo?” E para essa, parece não haver resposta. O corpo segue faminto, a cabeça latejando, uma sensação de algo explodirá em breve. Pode ser apenas uma mente que não consegue enxergar as perspectivas boas, apenas as partes ruins e sofridas. E assim, adiando as decisões do que o coração pede pois há uma demanda que o bolso quer (e que não é import...