Crônica do silêncio
Chego em casa e tenho como companhia apenas um canário idoso, que já não canta mais. Eventualmente ele parece ronronar, tenta emitir algum silvo , mas não consegue. Você dá boa noite ao canário, pois é o outro ser vivo com quem você coabita. Se é sábado de noite e não há programação nem para o sábado nem para o domingo, é quase certeza que a próxima vez em que você abrirá a boca é apenas segunda. Desde o advento do ZAP (e para quem odeia áudios), falar é desnecessário, basta mandar uma mensagem. Dá para pedir comida pelo aplicativo sem falar com ninguém. Dá para fazer o mercado sem falar com ninguém. Comprar roupa, livro etc, tudo o que antes necessitava de uma ligação e um mínimo de interação humana, hoje não precisa mais. E assim, vamos desaprendendo a falar. Será que, com o passar do tempo, nosso vocabulário se reduzirá? Será que esqueceremos o significado de palavras pouco comuns, como apanágio, efeméride, tergiversação etc? Será que o conjunto faringe/laringe irá se reduzindo ...