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Crônica insone

Quando a insônia bate, parece que todas as decisões tomadas nas encruzilhadas da vida foram erradas, levaram você por caminhos ruins, escuros, esburacados, sem saída às vezes. É terrível ficar com os olhos abertos na escuridão, só intuir onde estão as paredes do quarto, o teto, as portas do armário, as gavetas do criado mudo, mas ver teu passado se repetindo e você incapaz de mudar alguma rota. E não adianta dizer que você tomou a melhor decisão que podia naqueles momentos específicos, parece que a situação pela qual você passa hoje tornou aquela decisão antiga em uma escolha errada. Obviamente não havia como prever o futuro. Você chegou sozinho a cada bifurcação (ou trifurcação, eventualmente) e decidiu para onde ir. A sensação, porém, é que na encruzilhada atual você parece prestes a tomar mais uma decisão errada, que levará a outro lugar ruim, e essa perspectiva lhe tira o sono. “Onde foi que eu errei?” é a pergunta primeira, seguida de “Quantas vezes eu errei?” e “Será que vou ...

Crônica das expectativas

Um dos grandes desafios da vida é moderar as expectativas, as próprias e as alheias. Quando você é considerado por todos uma pessoa inteligente, todos esperam de você grandes feitos, trabalhos, conquistas, vitórias. A barreira a ser superada nesses casos é invariavelmente alta. Se você não é visto pelos outros como alguém de pensamentos excepcionais, ninguém colocará grandes expectativas em seus feitos profissionais ou pessoais. Isso falando do que os outros pensam de você. O problema é quando você começa a acreditar no que os outros pensam de você. Se todo mundo diz que você pode ser um presidente de uma empresa, por exemplo, e você não chega lá, você começa a duvidar de si mesmo. “Caramba, me veem como um CEO e eu não consigo passar de analista aqui dentro, o que estou fazendo errado?” E a cobrança vem grande, seu cérebro lhe castiga, sua cabeça não para de fazer planos contra você. Talvez a pergunta principal a ser feita não é “aonde você pode chegar”, mas sim “aonde você quer...

Crônica do silêncio

Chego em casa e tenho como companhia apenas um canário idoso, que já não canta mais. Eventualmente ele parece ronronar, tenta emitir algum silvo , mas não consegue. Você dá boa noite ao canário, pois é o outro ser vivo com quem você coabita. Se é sábado de noite e não há programação nem para o sábado nem para o domingo, é quase certeza que a próxima vez em que você abrirá a boca é apenas segunda. Desde o advento do ZAP (e para quem odeia áudios), falar é desnecessário, basta mandar uma mensagem. Dá para pedir comida pelo aplicativo sem falar com ninguém. Dá para fazer o mercado sem falar com ninguém. Comprar roupa, livro etc, tudo o que antes necessitava de uma ligação e um mínimo de interação humana, hoje não precisa mais. E assim, vamos desaprendendo a falar. Será que, com o passar do tempo, nosso vocabulário se reduzirá? Será que esqueceremos o significado de palavras pouco comuns, como apanágio, efeméride, tergiversação etc? Será que o conjunto faringe/laringe irá se reduzindo ...

Crônica da dissimulação

- E aí, meu amigo, a quanto tempo? Tudo bem com você? “Não, tá tudo uma merda. Estou me sentindo sozinho, fracassado, sem esperanças, cansado de tudo, com vontade de mandar todos à merda e ficar ainda mais sozinho, me segurando para não encher a cara diariamente...” - Tudo beleza sim, como manda o figurino. E você, como está? - Estou bem também. O que você anda fazendo? “Mandando todos para a pqp! Trabalhando que nem um camelo e não ganhando nada! Me preocupando com os problemas dos outros em vez de pensar nos meus! Adiando decisões importantes porque acho que devo alguma coisa para alguém! Pensando em como pagar contas, em como ressarcir gente, em como criar dinheiro! Deixando de lado o que gosto de fazer para fazer o que tenho que fazer!” - Mais do mesmo, sabe como é, né? Trabalho, voluntariado, uma ou outra festa de vez em quando, um barzinho... Vamos levando. - Maneiro! Pô, precisamos nos ver, que tal na sexta no fim do dia? O que você acha? “Acho uma péssima ideia....

Crônica das distâncias

Em algum momento de sua vida, você estará distante de tudo, de todas as maneiras possíveis. Por exemplo, você pode estar distante fisicamente de sua casa, ou do lugar que você considera casa, ou de algum lugar que você deseja conhecer muito, como o Tibete, ou a Austrália, sei lá (falando de um ponto de vista brasileiro, claro). Ou você começa a se lembrar de distâncias temporais, daquele tempo em que tudo era possível em sua vida, todas as possibilidades estavam abertas, mas um tempo que já não volta mais. Ou a distância do que acontecerá no futuro (bom ou ruim), que deve ser suportada até o evento esperado (um show, uma viagem, um pagamento extraordinário, o que for). Há distâncias piores de suportar. Estar próximo fisicamente de alguém e sentir que essa pessoa está a quilômetros e quilômetros de distância, que não há nenhum ponto de contato entre vocês dois, é horrível. E fica pior quando você tenta encurtar a distância, mas a corda lançada não encontra nenhum ponto de fixação, n...

Crônica da falsa euforia

Sexta-feira, dia de jogo da Seleção. Ainda que o jogo seja apenas 21h30 , já de manhã a cidade está vazia. As escolas nem abriram direito, os escritórios estão com metade dos funcionários no batente, os restaurantes do centro meio vazios, as ruas sem trânsito. A seleção é um fenômeno, pelo menos para o lado de diminuir o ritmo de todos, parece que uma vez a cada quatro anos dá para acreditar em alguma coisa. Agora, quem entende de futebol, quem gosta do jogo, quem pode ver times em outras copas, sabe que é tudo ilusão. Esse time atual não empolga ninguém, não motiva. A maior parte das pessoas vai é pela festa, pela cana, pelo encontro e pela farra. Futebol mesmo nem entra no cardápio, a turma não está preocupada com isso, com o resultado do jogo. Nos dias de hoje o que vale é o post, o reel, o story, tanto para quem “vê” o jogo como para quem o joga, infelizmente. Se nada dá motivos genuínos para animar a torcida, valem então os subterfúgios, a distração, a falsa motivação. Tudo ...

Crônica da visão invertida

A porta da rua é serventia da casa. O ditado popular serve para bastante coisa, mas principalmente para alguém que entra em algum lugar (físico ou não, como por exemplo uma associação) e vai logo reclamando de tudo, sem nem ao menos saber como as coisas funcionam. Ou incomoda tanto, reclamando de pequenas coisas, causando picuinhas, que ela  contamina  o ambiente. Nesses casos, vale dizer em alto e bom tom A porta da rua é serventia da casa , ou seja, vai embora que aqui você não é bem quisto. E quando somos nós que nos sentimos incomodados em algum lugar ou situação ou organização? Por que não dizemos para nós mesmos que essa porta imaginária também está à nossa disposição? Que se estamos desconfortáveis, desajustados, desalinhados, podemos nós pegar nossa mochila e dar no pé, pois a porta está ali para nós também? É difícil largar aquilo a que nos acostumamos, mesmo que esteja ruim. A inércia é a principal força do ser humano. Esquecemos de que podemos nos mover...