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Crônica da falsa euforia

Sexta-feira, dia de jogo da Seleção. Ainda que o jogo seja apenas 21h30 , já de manhã a cidade está vazia. As escolas nem abriram direito, os escritórios estão com metade dos funcionários no batente, os restaurantes do centro meio vazios, as ruas sem trânsito. A seleção é um fenômeno, pelo menos para o lado de diminuir o ritmo de todos, parece que uma vez a cada quatro anos dá para acreditar em alguma coisa. Agora, quem entende de futebol, quem gosta do jogo, quem pode ver times em outras copas, sabe que é tudo ilusão. Esse time atual não empolga ninguém, não motiva. A maior parte das pessoas vai é pela festa, pela cana, pelo encontro e pela farra. Futebol mesmo nem entra no cardápio, a turma não está preocupada com isso, com o resultado do jogo. Nos dias de hoje o que vale é o post, o reel, o story, tanto para quem “vê” o jogo como para quem o joga, infelizmente. Se nada dá motivos genuínos para animar a torcida, valem então os subterfúgios, a distração, a falsa motivação. Tudo ...

Crônica da visão invertida

A porta da rua é serventia da casa. O ditado popular serve para bastante coisa, mas principalmente para alguém que entra em algum lugar (físico ou não, como por exemplo uma associação) e vai logo reclamando de tudo, sem nem ao menos saber como as coisas funcionam. Ou incomoda tanto, reclamando de pequenas coisas, causando picuinhas, que ela  contamina  o ambiente. Nesses casos, vale dizer em alto e bom tom A porta da rua é serventia da casa , ou seja, vai embora que aqui você não é bem quisto. E quando somos nós que nos sentimos incomodados em algum lugar ou situação ou organização? Por que não dizemos para nós mesmos que essa porta imaginária também está à nossa disposição? Que se estamos desconfortáveis, desajustados, desalinhados, podemos nós pegar nossa mochila e dar no pé, pois a porta está ali para nós também? É difícil largar aquilo a que nos acostumamos, mesmo que esteja ruim. A inércia é a principal força do ser humano. Esquecemos de que podemos nos mover...

Crônica do lugar errado

Sonho estranho. Estou em uma sala de aula, mas não é uma escola, é parecida com algumas das atividades educacionais paralelas que faço. Não sou o educador principal, há uma mulher (que não se parece com ninguém que eu conheça) que é a titular da sala. As crianças que estão na aula se levantam para fazer alguma atividade que envolve movimento. E de repente, elas começam a se estapear, se chutar. Eu intervenho dando uma bronca geral. E a principal me chama de lado dizendo que eu não posso agir assim, pois se damos bronca neles as crianças reclamam para os pais e saem dessa instituição, e dependemos do dinheiro deles para sobreviver. Isso me dá um curto-circuito na cabeça, não entendo. O sonho tem uma segunda parte, mas não faz ligação alguma com essa primeira. No entanto, o despertar trouxe as lembranças de ambas. A sensação ao acordar é de deslocamento. Eu devia estar naquela sala? Com certeza, cheguei até ali por escolhas minhas (maldito Sartre). Mas posso escolher não estar mais a...

Crônica do intervalo

Então é assim. Você começa a todo gás, diariamente você faz um esforço enorme para alcançar o que você programou. Vale para tudo, trabalho, esporte, lazer, cultura, leitura, enfim, qualquer coisa. E pau na máquina, dia após dia, durante algumas semanas. De repente, acontece algum evento inesperado e você para, dá a impressão que o gás acaba. E uma vez parado, parece que retomar o ritmo é difícil, quase impossível. Será que faltou programar a pausa também? Pois pausas são importantes. Ninguém aguenta ficar oito horas estudando sem parar para uma prova, por exemplo, chega um momento em que nenhum conhecimento mais entra na cabeça. Mesmo no trabalho, recomenda-se dar alguns intervalos eventualmente, você retorna à tarefa com mais vontade e gás e ideias novas. A leitura, eventualmente, pode te prender por longas horas quando o livro é bom. Mas ali é o autor provocando o seu cérebro, a fadiga vai para longe. No fundo, essas palavras são só uma desculpa pelos dias longe do foco. ...

Crônica ao léu

Acordo com o barulho do alarme do celular, penso que mais dez minutos não afetarão o mundo, aperto o botão disso, e viro pro lado. Em um segundo depois, o alarme toca de novo e daí, da realidade não dá para escapar. Joga as pernas para fora da cama, tira a roupa que serve de pijama e se veste a armadura do dia, e vamos pra cozinha fazer o café. Por que será que não reclamamos muito do cardápio estático dos cafés da manhã? Por mais que tentemos, o cardápio possível permanece. Mas talvez, apenas talvez, o cardápio é limitado, e restrito a liberalidades. Então, fica a opção frutas com iogurte ou feijão com bacon. Seguimos. Trinta minutos depois, essas dúvidas existenciais sobre o que comer no café da manhã desaparecem, e vem as nossas dúvidas, e talvez em uma ordem de prioridade na cabeça: “boletos, contas futuras, preciso trocar de carro/moto/terno/saia/calçado, aposentadoria, e aquele livro que eu vou escrever”. A realidade vem como um tsunami, e o sonho, lá no fim da lista de coisa...

Crônica do silêncio

- Oi. - Oi. - O que você acha da gente começar a aula de dança de salão? - Putz, logo agora, tem tanto evento de noite, ando sem vontade de sair. - Então tá. ... - Oi, que ver essa série comigo? - Puxa, estou estudando para uma prova, preciso ler um material. Posso só ficar do teu lado? - Tá. ... - Vamos sair? - Aonde? - Que tal aquele bar de gafieira para a gente dançar? Você gostava tanto... - Mas eu não sei dançar, você que sabe, fico com vergonha, não tô a fim. - Então tá. ... - Vamos no jantar de inauguração daquele restaurante? - Putz, bem na semana que não vou beber por causa da prova? - Tá. ... - Chega mais perto, tô com frio. - Hmm, tá querendo algo a mais?? - Sim, estou, Que tal? - Vamos tentar... - Para, não está rolando... - Sou eu ou sou você? - Acho que nós dois. - Então tá...

Crônica do espanto sartriano

Exercer a liberdade absoluta a que estamos condenados, como disse o Sartre, pode espantar as pessoas. Somos tão acostumados a julgar os outros pelas suas atitudes que, quando nós tomamos decisões que fogem ao que o outro espera de nós, provocamos o espanto . “Como assim, você quer ser vendedor de tintas?” “O que, vai trocar o certo pelo duvidoso, você que é tão inteligente?” E por aí vai o espanto alheio. Ninguém pergunta a você o que você quer, a pessoa supõe que sabe o que você quer e se a informação não se casar com a pressuposição, vem o espanto. Uma explicação possível é que, por mais amigos, por mais íntima que seja uma relação, somos sempre estranhos ao outro. Conhecemos o outro bem, talvez muito bem, mas não compartilhamos a nossa intimidade mais profunda, estamos sempre com uma ou mais camadas de proteção. Temos medo de nos expor exatamente como somos, ou melhor, o que queremos, e esse desconhecimento por parte do outro é a razão do espanto. É quando decidimos tornar conh...