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Crônica da falta de visão

O corpo acorda antes do despertador, pois a cabeça não é que parou de pensar durante a noite. Já é quase um ritual, desligar o alarme do celular e dizer ao aparelho: “pode descansar, deixa que eu trabalho”. Falar com um objeto inanimado pode parecer estranho, mas a solidão é companheira a tanto tempo que faz sentido. O estômago ronca, o café da manhã desce e o estômago continua roncando. Não há alimento que sacie o vazio provocado pelos pensamentos intrusivos da noite. “Será que vai dar ruim? Vou ter que procurar outro lugar para trabalhar? De novo? Logo agora que parecia dar certo?”. Mas a pergunta que realmente pega é: “o que você quer mesmo?” E para essa, parece não haver resposta. O corpo segue faminto, a cabeça latejando, uma sensação de algo explodirá em breve. Pode ser apenas uma mente que não consegue enxergar as perspectivas boas, apenas as partes ruins e sofridas. E assim, adiando as decisões do que o coração pede pois há uma demanda que o bolso quer (e que não é import...

Viver é a melhor vingança

Vez por outra rola um desânimo brabo com a vida. Mas aí eu lembro que esses fascistas querem mesmo é a morte e me ocorre que a grande transgressão é ficar vivo. Viver é a nossa grande vingança contra esses putos. (Luiz Antonio Simas) Viver é a vingança. É ficar enlutado pelas 300 mil pessoas que já morreram no país, pelo menos metade dessas mortes evitáveis se esses putos tivessem levado a sério a doença, com mais ciência e menos ideologia, mas não ficar tão pesaroso a ponto de desistir. Viver é a vingança. É ficar com medo pelo futuro do seu trabalho, da sua comodidade, do conforto de sua casa, da segurança dos seus filhos, mas não ficar apavorado a ponto de desistir. Viver é a vingança. É ter pena da quantidade cada vez maior de pessoas nas ruas, com fome, sem esperança, sem perspectiva, enquanto você ainda tem alguma, mas acreditar que o mínimo que você puder fazer para minorar a dor de alguém já é uma boa ação, faz parte da grande vingança contra esses putos que é viver e ajudar a ...

O vazio no estômago, de novo

Mais uma vez aparece aquela sensação de vazio no estômago. É recorrente nos momentos em que perco a esperança de uma saída tranquila, ainda que trabalhosa, de alguma situação. É como se o corpo dissesse que algo de ruim está para acontecer, e o estômago é o primeiro que sente. Já pela manhã, em vez de apenas uma ida ao trono, são três ou quatro, o estômago precisa expelir o que está dentro, uma angústia, um medo, um temor, tudo junto. Tem que sair, mas não sai, o vazio permanece. Gostaria até de dizer que é uma sensação difusa, mas não, é bem concentrada no estômago. Não adianta comer, não enche. Não adianta beber, não conforta. Não adianta tentar esquecer, ele ronca. E ao se manifestar, todas as possíveis piores consequências tomam vulto. A esperança dá uma escapada, espera na sala ao lado, vai tomar um café não sei onde, mas não fica por perto, nem para dar um consolo. Resta o incômodo e o desconforto. Talvez eu esteja exagerando comigo mesmo, afinal nada ainda aconteceu, e tudo pode...

Tédio ou desesperança

Segunda, seis da manhã, saio da cama. Na prática, já estou acordado desde as três, me comportando como um bife bem passado, virando de um lado para outro, na tentativa de achar uma posição que me faça voltar a dormir. Mas o sono não vem, e os pesadelos do dia começam a aparecer. Sim, do dia, pois os sonhos são ok, o problema está na realidade. Trabalhar para quê? Trabalhar por quê? Bate uma desesperança - mas ainda não o desespero - de que parece tudo em vão. Saio de casa já pensando na hora em que estarei de volta. Dez módulos semanais, é o que me digo. Cinco manhãs e cinco tardes, mais ou menos quatro horas cada, e logo acaba a semana. Triste começar a segunda pensando na sexta. E quando a sexta chega, ela traz um alívio momentâneo. O cérebro quase desliga, quase, e o trabalho fica lá onde ele está, parado. As dívidas não se mexem, o estoque não se mexe, os funcionários não falam, o telefone não toca. Entro em uma bolha para disfarçar que não tenho trabalho, nem problemas relacionado...

Nó nas tripas

Há diversas pesquisas que mostram a relação direta que nossas tripas, o sistema digestivo, têm com nosso sistema nervoso e emocional. Há inclusive algumas que mostram que para aliviar os sintomas de hiperatividade ou de autismo em crianças é necessário ter uma flora intestinal saudável. Não cheguei a ler com muita atenção nenhuma dessas pesquisas, mas acompanho sempre qualquer novidade nesse tema. Lembrei disso pois meu estômago está em frangalhos, e não é por causa da alimentação. O emocional anda me derribando. Parece que a motoniveladora das provas e expiações resolver ir e voltar algumas vezes, para me colocar em teste. São acidentes no trabalho, ameaças judiciais, ameaças financeiras, decisões (ainda que em conjunto) postas à prova como um exame de competência, ausência de rumo e objetivo claro, ou mesmo de uma saída para essa grande crise que afeta a todos em geral, mas a cada um de uma maneira diferente. Provavelmente não estou sabendo lidar com isso, e só consigo ver desesperan...

Tentativa 1

Toda a alegria do réveillon, a vontade de começar diferente, sem as neuras de sempre, foram por água abaixo com uma carta. Como é que pode toda uma lista de bons propósitos serem abalados tão fortemente por apenas uma folha de papel? Muito provavelmente era um sinal de que as resoluções de ano novo, desde o regime até a mudança de atitude no trabalho, estavam muito dependentes do mundo de que de si próprio. E em 15 minutos pareceu que tudo desabou. O sangue sumiu das veias, o pensamento travou na desgraça e na tragédia, o pessimismo cegou e os outros documentos que precisavam ser lidos foram deixados de lado, as pernas bambearam, a boca secou e a esperança de que tudo seria melhor desapareceu. As palavras na carta eram muito claras, ainda que ele tenha se feito de burro para não querer entender. "Seu contrato que já terminou em 31 de dezembro de 2018 foi prorrogado para 31 de março de 2019." Não há na carta nenhuma menção a um novo contrato, ou a uma razão par...

Triste país

Triste país. Vemos irmãos brigando com irmãos, amigos se separando de amigos, tudo por conta de um radicalismo que desde 2002 vem crescendo, em grande parte devido a um ex-presidente que apostou tudo no "nós contra eles" para se garantir no poder e que ainda hoje tenta influenciar o processo, apesar de estar preso. Não, não eximo de culpa os "eles", que se acovardaram e até repartiram o butim do roubo à nação que já existia desde 1500. O "nós contra eles" era retórica apenas, o objetivo de "nós" e "eles" sempre foi tirar do nosso bolso e por no deles. O primeiro colocado nas pesquisas é um louco, um parlamentar sem representatividade e efetividade, mas que fala ao fígado das pessoas, principalmente na questão da segurança pública. O cidadão comum está com medo de ir às ruas, e não é medo de ser assaltado apenas, mas medo de ser morto se não entregar o celular da maneira correta. E esse medo é compartilhado pela "elite" que pod...