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Crônica da fuga

Na mesa de trabalho, duas telas deveriam chamar mais a atenção que o livro que está fechado ao lado. Uma briga se desenrola no cérebro: o dever imediato e o prazer imediato. O dever manda checar os indicadores, ver o saldo dos clientes, buscar aplicações, oferecer produtos etc. O prazer manda você mandar tudo à pqp e abrir o livro e continuar a leitura. O mundo está descaralhando mesmo, de que adianta ficar de olho em duas telas, quando há um mundo alternativo muito mais atraente? A cada instante, uma nova rota de fuga da realidade se abre. É o livro, pode ser uma HQ, ou então um filme, ou mesmo um parque. Em alguns casos, o algoritmo até parece conspirar junto com o seu cérebro. Na tela, pipoca uma nova trilha por montanhas conhecidas e não, ou uma prova à beira mar com baleias e o convite para correr 42 km (e nessa hora as panturrilhas gritam pra quê???), ou uma ciclovia sensacional em algum lugar do mundo. Ao telefone, o primo liga. Mais exatamente, o filho da prima. Ele quer...

Crônica do recomeço

Começar de Novo Música de Ivan Lins Começar de novo, e contar comigo Vai valer a pena, ter amanhecido Ter me rebelado, ter me debatido Ter me machucado, ter sobrevivido Ter virado a mesa, ter me conhecido Ter virado o barco, ter me socorrido Começar de novo, e contar comigo Vai valer a pena ter amanhecido Sem as tuas garras, sempre tão seguras Sem o teu fantasma, sem tua moldura Sem tuas escoras, sem o teu domínio Sem tuas esporas, sem o teu fascínio Começar de novo, e contar comigo Vai valer a pena, já ter te esquecido Começar de novo   É uma necessidade, grita alto, grito que vem do fundo. Dá um cansaço de pensar que é necessário começar de novo, mas a cada dia, parece ser imperativo fazer isso, se a vontade é viver, não apenas sobreviver. Mergulhar em si mesmo (ensimesmar-se, palavra de que tanto gosto) para descobrir quem sou eu mesmo, onde estou machucado, como me curar. Começar de novo assusta, pois j...

Crônica insone

Quando a insônia bate, parece que todas as decisões tomadas nas encruzilhadas da vida foram erradas, levaram você por caminhos ruins, escuros, esburacados, sem saída às vezes. É terrível ficar com os olhos abertos na escuridão, só intuir onde estão as paredes do quarto, o teto, as portas do armário, as gavetas do criado mudo, mas ver teu passado se repetindo e você incapaz de mudar alguma rota. E não adianta dizer que você tomou a melhor decisão que podia naqueles momentos específicos, parece que a situação pela qual você passa hoje tornou aquela decisão antiga em uma escolha errada. Obviamente não havia como prever o futuro. Você chegou sozinho a cada bifurcação (ou trifurcação, eventualmente) e decidiu para onde ir. A sensação, porém, é que na encruzilhada atual você parece prestes a tomar mais uma decisão errada, que levará a outro lugar ruim, e essa perspectiva lhe tira o sono. “Onde foi que eu errei?” é a pergunta primeira, seguida de “Quantas vezes eu errei?” e “Será que vou ...

Crônica das expectativas

Um dos grandes desafios da vida é moderar as expectativas, as próprias e as alheias. Quando você é considerado por todos uma pessoa inteligente, todos esperam de você grandes feitos, trabalhos, conquistas, vitórias. A barreira a ser superada nesses casos é invariavelmente alta. Se você não é visto pelos outros como alguém de pensamentos excepcionais, ninguém colocará grandes expectativas em seus feitos profissionais ou pessoais. Isso falando do que os outros pensam de você. O problema é quando você começa a acreditar no que os outros pensam de você. Se todo mundo diz que você pode ser um presidente de uma empresa, por exemplo, e você não chega lá, você começa a duvidar de si mesmo. “Caramba, me veem como um CEO e eu não consigo passar de analista aqui dentro, o que estou fazendo errado?” E a cobrança vem grande, seu cérebro lhe castiga, sua cabeça não para de fazer planos contra você. Talvez a pergunta principal a ser feita não é “aonde você pode chegar”, mas sim “aonde você quer...

Crônica do silêncio

Chego em casa e tenho como companhia apenas um canário idoso, que já não canta mais. Eventualmente ele parece ronronar, tenta emitir algum silvo , mas não consegue. Você dá boa noite ao canário, pois é o outro ser vivo com quem você coabita. Se é sábado de noite e não há programação nem para o sábado nem para o domingo, é quase certeza que a próxima vez em que você abrirá a boca é apenas segunda. Desde o advento do ZAP (e para quem odeia áudios), falar é desnecessário, basta mandar uma mensagem. Dá para pedir comida pelo aplicativo sem falar com ninguém. Dá para fazer o mercado sem falar com ninguém. Comprar roupa, livro etc, tudo o que antes necessitava de uma ligação e um mínimo de interação humana, hoje não precisa mais. E assim, vamos desaprendendo a falar. Será que, com o passar do tempo, nosso vocabulário se reduzirá? Será que esqueceremos o significado de palavras pouco comuns, como apanágio, efeméride, tergiversação etc? Será que o conjunto faringe/laringe irá se reduzindo ...

Crônica da dissimulação

- E aí, meu amigo, a quanto tempo? Tudo bem com você? “Não, tá tudo uma merda. Estou me sentindo sozinho, fracassado, sem esperanças, cansado de tudo, com vontade de mandar todos à merda e ficar ainda mais sozinho, me segurando para não encher a cara diariamente...” - Tudo beleza sim, como manda o figurino. E você, como está? - Estou bem também. O que você anda fazendo? “Mandando todos para a pqp! Trabalhando que nem um camelo e não ganhando nada! Me preocupando com os problemas dos outros em vez de pensar nos meus! Adiando decisões importantes porque acho que devo alguma coisa para alguém! Pensando em como pagar contas, em como ressarcir gente, em como criar dinheiro! Deixando de lado o que gosto de fazer para fazer o que tenho que fazer!” - Mais do mesmo, sabe como é, né? Trabalho, voluntariado, uma ou outra festa de vez em quando, um barzinho... Vamos levando. - Maneiro! Pô, precisamos nos ver, que tal na sexta no fim do dia? O que você acha? “Acho uma péssima ideia....

Crônica das distâncias

Em algum momento de sua vida, você estará distante de tudo, de todas as maneiras possíveis. Por exemplo, você pode estar distante fisicamente de sua casa, ou do lugar que você considera casa, ou de algum lugar que você deseja conhecer muito, como o Tibete, ou a Austrália, sei lá (falando de um ponto de vista brasileiro, claro). Ou você começa a se lembrar de distâncias temporais, daquele tempo em que tudo era possível em sua vida, todas as possibilidades estavam abertas, mas um tempo que já não volta mais. Ou a distância do que acontecerá no futuro (bom ou ruim), que deve ser suportada até o evento esperado (um show, uma viagem, um pagamento extraordinário, o que for). Há distâncias piores de suportar. Estar próximo fisicamente de alguém e sentir que essa pessoa está a quilômetros e quilômetros de distância, que não há nenhum ponto de contato entre vocês dois, é horrível. E fica pior quando você tenta encurtar a distância, mas a corda lançada não encontra nenhum ponto de fixação, n...