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Crônica do intervalo

Então é assim. Você começa a todo gás, diariamente você faz um esforço enorme para alcançar o que você programou. Vale para tudo, trabalho, esporte, lazer, cultura, leitura, enfim, qualquer coisa. E pau na máquina, dia após dia, durante algumas semanas. De repente, acontece algum evento inesperado e você para, dá a impressão que o gás acaba. E uma vez parado, parece que retomar o ritmo é difícil, quase impossível. Será que faltou programar a pausa também? Pois pausas são importantes. Ninguém aguenta ficar oito horas estudando sem parar para uma prova, por exemplo, chega um momento em que nenhum conhecimento mais entra na cabeça. Mesmo no trabalho, recomenda-se dar alguns intervalos eventualmente, você retorna à tarefa com mais vontade e gás e ideias novas. A leitura, eventualmente, pode te prender por longas horas quando o livro é bom. Mas ali é o autor provocando o seu cérebro, a fadiga vai para longe. No fundo, essas palavras são só uma desculpa pelos dias longe do foco. ...

Crônica ao léu

Acordo com o barulho do alarme do celular, penso que mais dez minutos não afetarão o mundo, aperto o botão disso, e viro pro lado. Em um segundo depois, o alarme toca de novo e daí, da realidade não dá para escapar. Joga as pernas para fora da cama, tira a roupa que serve de pijama e se veste a armadura do dia, e vamos pra cozinha fazer o café. Por que será que não reclamamos muito do cardápio estático dos cafés da manhã? Por mais que tentemos, o cardápio possível permanece. Mas talvez, apenas talvez, o cardápio é limitado, e restrito a liberalidades. Então, fica a opção frutas com iogurte ou feijão com bacon. Seguimos. Trinta minutos depois, essas dúvidas existenciais sobre o que comer no café da manhã desaparecem, e vem as nossas dúvidas, e talvez em uma ordem de prioridade na cabeça: “boletos, contas futuras, preciso trocar de carro/moto/terno/saia/calçado, aposentadoria, e aquele livro que eu vou escrever”. A realidade vem como um tsunami, e o sonho, lá no fim da lista de coisa...

Crônica do silêncio

- Oi. - Oi. - O que você acha da gente começar a aula de dança de salão? - Putz, logo agora, tem tanto evento de noite, ando sem vontade de sair. - Então tá. ... - Oi, que ver essa série comigo? - Puxa, estou estudando para uma prova, preciso ler um material. Posso só ficar do teu lado? - Tá. ... - Vamos sair? - Aonde? - Que tal aquele bar de gafieira para a gente dançar? Você gostava tanto... - Mas eu não sei dançar, você que sabe, fico com vergonha, não tô a fim. - Então tá. ... - Vamos no jantar de inauguração daquele restaurante? - Putz, bem na semana que não vou beber por causa da prova? - Tá. ... - Chega mais perto, tô com frio. - Hmm, tá querendo algo a mais?? - Sim, estou, Que tal? - Vamos tentar... - Para, não está rolando... - Sou eu ou sou você? - Acho que nós dois. - Então tá...

Crônica do espanto sartriano

Exercer a liberdade absoluta a que estamos condenados, como disse o Sartre, pode espantar as pessoas. Somos tão acostumados a julgar os outros pelas suas atitudes que, quando nós tomamos decisões que fogem ao que o outro espera de nós, provocamos o espanto . “Como assim, você quer ser vendedor de tintas?” “O que, vai trocar o certo pelo duvidoso, você que é tão inteligente?” E por aí vai o espanto alheio. Ninguém pergunta a você o que você quer, a pessoa supõe que sabe o que você quer e se a informação não se casar com a pressuposição, vem o espanto. Uma explicação possível é que, por mais amigos, por mais íntima que seja uma relação, somos sempre estranhos ao outro. Conhecemos o outro bem, talvez muito bem, mas não compartilhamos a nossa intimidade mais profunda, estamos sempre com uma ou mais camadas de proteção. Temos medo de nos expor exatamente como somos, ou melhor, o que queremos, e esse desconhecimento por parte do outro é a razão do espanto. É quando decidimos tornar conh...

Crônica Sartriana

O ser humano é condenado a ser livre – Jean-Paul Sartre Cada passo é uma escolha pessoal. Não há como terceirizar nenhuma responsabilidade pelas suas opções, você é quem é e faz o que faz porque você escolheu isso, e mais ninguém. Não adianta jogar a culpa nos pais, nos amigos, nos parceiros ou nos astros (aliás, bem comum essa terceirização das próprias escolhas para o esotérico, para os deuses ou o alinhamento dos planetas), a culpa é sua. E essa é sua condenação. Exercer essa liberdade radical pode assustar os outros. Dependendo de para quem você fala sua escolha, a pessoa pode se assustar. “Como assim, você é tão inteligente e quer ser vendedor de balcão?” A liberdade absoluta implica, muitas vezes, em não escutar o veredicto dos outros, por mais próximos que sejam, fazer ouvidos moucos ao julgamento alheio, encarar a censura velada quando uma escolha pode parecer contraditória para o outro. No entanto, se ela faz sentido para você, exerça o seu direito à liberdade, aproveite...

Crônica do sinal intermitente

Tem dias que a conexão é firme, não cai. Tem dias em que não há conexão. E na maior parte dos dias, o sinal sobe e desce, vai e vem, cai e levanta. Quando a mensagem entra na caixa, alegria, satisfação, o sorriso brota no rosto e encaramos o vento contrário como uma brisa que refresca. Quando nenhuma ligação se completa, tristeza, ansiedade pelo futuro, medo, noites mal dormidas, incômodo. Ainda que a vida venha como ondas, sonhamos sempre com um mar plácido, com uma leve marolinha que embale, nada de tsunamis. Mas o mundo não dá trégua, é calmaria seguida de muitas tempestades. E parece haver bem mais tormentas que sossegos. (uma lembrança vem à mente: a curva senoidal que aparecia nos osciloscópios era sempre regular, ou seja, ainda que rápida, para cada pico havia um vale, um após o outro, sem pausas nem variações). Não temos o que queremos, e quando temos, desperdiçamos. Para tentar reduzir a intermitência, é necessário subir no telhado e redirecionar a antena. Alguém precisa...

Crônica da conexão perdida

5h, toca o despertador, pula logo da cama pois o dia promete ser cheio de boas notícias! Café da manhã já focado, pensando na corrida, nas ligações a serem feitas antes mesmo do trabalho começar, nas reuniões, nos problemas que serão resolvidos, nos próximos passos a serem tomados. A corrida ajuda a manter o foco, uma hora de suor e cansaço para liberar a mente para fazer o que precisa ser feito. Vamos lá, manter o foco! Ao longo do dia, a realidade vai se impondo e colocando alguns obstáculos. Nem todas as ligações são atendidas do outro lado, alguns problemas não poderão ser resolvidos pois tem pendências de outros atores, os passos estão definidos, mas há algo que não se encaixa, a direção não parece clara. Assim, o que pela manhã era conexão total com um futuro melhor vai se perdendo minuto a minuto. No fim do dia, nem bombril na antena refaz a conexão. Você até tenta se animar, sai de casa, vai a uma exposição, encontra algumas pessoas, mas nada adianta e o foco foi perdido....