Crônica da partida iminente
O sonho é recorrente. Estou em algum lugar no estrangeiro, normalmente na Itália (mas nem sempre), e em alguns instantes, no máximo no dia seguinte. E ainda tem um monte de coisa para fazer, coisas práticas, burocráticas. No último sonho, era um domingo de tarde e eu olhava para todos os livros que eu precisava encaixotar e despachar pelo correio no dia seguinte, sem saber se daria tempo de passar em alguma agência para fazer isso, pois o voo era cedo também. E daí começa a correria.
Em geral, o voo é sempre de volta para o Brasil. Porque ainda não consegui elaborar. Desde o primeiro período morado fora, nem a juventude foi capaz de me afastar da vontade de voltar, de construir algo. Conheci pessoas que estavam viajando a cinco, dez, quinze anos. Pessoas legais, interessantes, mas cheias de histórias de portos e aeroportos, de passagens, nunca de construção de algo. E eu achava que precisava construir algo, e que tinha que ser no Brasil. No segundo período, já um pouco menos impetuoso, a mesma sensação estava lá, dessa vez somada à certeza de que nunca você será tratado como um igual em outro país. Você é parte dos novos bárbaros, que foram para lá se aproveitar da riqueza construída por eles (obviamente, uma visão errada do que foi que os tornou ricos, mas deixa para lá).
Os livros estão no porta-malas do carro e nas prateleiras do quarto. A mochila nem começou a ser arrumada. Não sei onde está o passaporte nem a passagem de avião para ver que horas é o voo. Mas estou correndo, a partida é daqui a pouco. Aparentemente, já encerrei o novo ciclo no exterior, e devo retornar. Para fazer o que, exatamente, não sei, mas retornarei. Só espero que dê tempo.
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