Crônica do silêncio
Chego em casa e tenho como companhia apenas um canário idoso, que já não canta mais. Eventualmente ele parece ronronar, tenta emitir algum silvo, mas não consegue. Você dá boa noite ao canário, pois é o outro ser vivo com quem você coabita. Se é sábado de noite e não há programação nem para o sábado nem para o domingo, é quase certeza que a próxima vez em que você abrirá a boca é apenas segunda. Desde o advento do ZAP (e para quem odeia áudios), falar é desnecessário, basta mandar uma mensagem.
Dá para pedir comida pelo aplicativo sem falar com ninguém. Dá para fazer o mercado sem falar com ninguém. Comprar roupa, livro etc, tudo o que antes necessitava de uma ligação e um mínimo de interação humana, hoje não precisa mais. E assim, vamos desaprendendo a falar. Será que, com o passar do tempo, nosso vocabulário se reduzirá? Será que esqueceremos o significado de palavras pouco comuns, como apanágio, efeméride, tergiversação etc? Será que o conjunto faringe/laringe irá se reduzindo com o menor uso das palavras?
Por um lado, pode até ser uma benção não falar com ninguém. Às vezes, quando dominado pelos pensamentos intrusivos e expressos sem filtro, as palavras pesam e machucam e magoam. Do outro lado também há prejuízos, claro. As declarações de amor instantâneas e espontâneas, principalmente aquelas motivadas pela ebriez, deixarão de existir. Em vez de um “eu te amo” com a língua arrastada pelo álcool, irá um emoji e olhe lá. Em vez de poemas (ruins) improvisados, daqueles que rimam emoção com coração, um chat gpt qualquer chupa ideias de algum poeta na rede e gospe algo sem alma para ser enviado pelo celular.
Ainda estou fazendo as contas para ver para qual lado pende a balança. Por enquanto, o silêncio do fim de semana está sendo plenamente recompensado.
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