Crônica insone

Quando a insônia bate, parece que todas as decisões tomadas nas encruzilhadas da vida foram erradas, levaram você por caminhos ruins, escuros, esburacados, sem saída às vezes. É terrível ficar com os olhos abertos na escuridão, só intuir onde estão as paredes do quarto, o teto, as portas do armário, as gavetas do criado mudo, mas ver teu passado se repetindo e você incapaz de mudar alguma rota. E não adianta dizer que você tomou a melhor decisão que podia naqueles momentos específicos, parece que a situação pela qual você passa hoje tornou aquela decisão antiga em uma escolha errada.

Obviamente não havia como prever o futuro. Você chegou sozinho a cada bifurcação (ou trifurcação, eventualmente) e decidiu para onde ir. A sensação, porém, é que na encruzilhada atual você parece prestes a tomar mais uma decisão errada, que levará a outro lugar ruim, e essa perspectiva lhe tira o sono. “Onde foi que eu errei?” é a pergunta primeira, seguida de “Quantas vezes eu errei?” e “Será que vou errar de novo?” E em vez de mergulhar a fundo na própria consciência, se descobrir e conseguir encontrar o que realmente você quer, você retorna ao passado e fica remoendo, regurgitando como um boi, sem digerir.

A vontade de colocar muitas pedras em todo o passado e recomeçar é grande. Mas já tem a idade, as responsabilidades, as contas, as cobranças de desempenho, todo um conjunto de fatores que tornam a quantidade de pedras muito grande. E elas não vão eliminar o passado, no máximo o esconderão por um tempo, pois essas pedras se dissolvem rapidamente com as chuvas e os ventos. Logo logo o passado aflora para lhe atormentar, e no silêncio da noite, as memórias gritam e lhe impedem o sono. Enquanto você não deixar de lado, a balada da insônia continuará tocando. Aguente.

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