Crônica da dissimulação
- E aí, meu amigo, a quanto tempo? Tudo bem com você?
“Não, tá tudo uma merda. Estou me sentindo sozinho, fracassado, sem esperanças, cansado de tudo, com vontade de mandar todos à merda e ficar ainda mais sozinho, me segurando para não encher a cara diariamente...”
- Tudo beleza sim, como manda o figurino. E você, como está?
- Estou bem também. O que você anda fazendo?
“Mandando todos para a pqp! Trabalhando que nem um camelo e não ganhando nada! Me preocupando com os problemas dos outros em vez de pensar nos meus! Adiando decisões importantes porque acho que devo alguma coisa para alguém! Pensando em como pagar contas, em como ressarcir gente, em como criar dinheiro! Deixando de lado o que gosto de fazer para fazer o que tenho que fazer!”
- Mais do mesmo, sabe como é, né? Trabalho, voluntariado, uma ou outra festa de vez em quando, um barzinho... Vamos levando.
- Maneiro! Pô, precisamos nos ver, que tal na sexta no fim do dia? O que você acha?
“Acho uma péssima ideia. Não ando a fim de compartilhar nada com ninguém! Prefiro levar minha bile para a cama e dormir 12 horas seguidas a ter que fingir que estou bem, principalmente para quem não é meu amigo de verdade! Para que sair e mentir para si mesmo de que as coisas vão bem?”
- Opa, vamos sim? Você me liga?
- Pode deixar, vou ligar sim. Até mais!
“Até nunca mais!”
- Até!
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