Crônica das distâncias

Em algum momento de sua vida, você estará distante de tudo, de todas as maneiras possíveis. Por exemplo, você pode estar distante fisicamente de sua casa, ou do lugar que você considera casa, ou de algum lugar que você deseja conhecer muito, como o Tibete, ou a Austrália, sei lá (falando de um ponto de vista brasileiro, claro). Ou você começa a se lembrar de distâncias temporais, daquele tempo em que tudo era possível em sua vida, todas as possibilidades estavam abertas, mas um tempo que já não volta mais. Ou a distância do que acontecerá no futuro (bom ou ruim), que deve ser suportada até o evento esperado (um show, uma viagem, um pagamento extraordinário, o que for).

Há distâncias piores de suportar. Estar próximo fisicamente de alguém e sentir que essa pessoa está a quilômetros e quilômetros de distância, que não há nenhum ponto de contato entre vocês dois, é horrível. E fica pior quando você tenta encurtar a distância, mas a corda lançada não encontra nenhum ponto de fixação, não tem como a aproximar, por mais vezes que você jogue a corda. E dá-lhe esperar o tempo passar para aquele encontro incômodo acabar (alguém terá que tomar a iniciativa em algum momento).

Mas talvez a pior distância de todas seja aquela em que você está longe de você mesmo. Você sabe quem é, do que é capaz, de suas habilidades, mas por alguma razão você embarca em uma armadilha montada por você mesmo e se afasta de tudo isso. A cada dia você dá um passo para outra direção. Em vez de ir ao encontro de si mesmo, você aumenta o espaço. Em alguns momentos de consciência ou embriaguez, você toma a decisão de juntar os seus cacos e voltar a ser quem é. A iniciativa, porém, não toma corpo, é fogo de palha que logo se apaga, e você se vê perdido “no tempo, no espaço e na dor” (como cantou o Blindagem em sua versão do Rocky Horror Show). Onde estará o mapa para se achar?

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