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O vazio no estômago, de novo

Mais uma vez aparece aquela sensação de vazio no estômago. É recorrente nos momentos em que perco a esperança de uma saída tranquila, ainda que trabalhosa, de alguma situação. É como se o corpo dissesse que algo de ruim está para acontecer, e o estômago é o primeiro que sente. Já pela manhã, em vez de apenas uma ida ao trono, são três ou quatro, o estômago precisa expelir o que está dentro, uma angústia, um medo, um temor, tudo junto. Tem que sair, mas não sai, o vazio permanece. Gostaria até de dizer que é uma sensação difusa, mas não, é bem concentrada no estômago. Não adianta comer, não enche. Não adianta beber, não conforta. Não adianta tentar esquecer, ele ronca. E ao se manifestar, todas as possíveis piores consequências tomam vulto. A esperança dá uma escapada, espera na sala ao lado, vai tomar um café não sei onde, mas não fica por perto, nem para dar um consolo. Resta o incômodo e o desconforto. Talvez eu esteja exagerando comigo mesmo, afinal nada ainda aconteceu, e tudo pode...

Tédio ou desesperança

Segunda, seis da manhã, saio da cama. Na prática, já estou acordado desde as três, me comportando como um bife bem passado, virando de um lado para outro, na tentativa de achar uma posição que me faça voltar a dormir. Mas o sono não vem, e os pesadelos do dia começam a aparecer. Sim, do dia, pois os sonhos são ok, o problema está na realidade. Trabalhar para quê? Trabalhar por quê? Bate uma desesperança - mas ainda não o desespero - de que parece tudo em vão. Saio de casa já pensando na hora em que estarei de volta. Dez módulos semanais, é o que me digo. Cinco manhãs e cinco tardes, mais ou menos quatro horas cada, e logo acaba a semana. Triste começar a segunda pensando na sexta. E quando a sexta chega, ela traz um alívio momentâneo. O cérebro quase desliga, quase, e o trabalho fica lá onde ele está, parado. As dívidas não se mexem, o estoque não se mexe, os funcionários não falam, o telefone não toca. Entro em uma bolha para disfarçar que não tenho trabalho, nem problemas relacionado...

Nó nas tripas

Há diversas pesquisas que mostram a relação direta que nossas tripas, o sistema digestivo, têm com nosso sistema nervoso e emocional. Há inclusive algumas que mostram que para aliviar os sintomas de hiperatividade ou de autismo em crianças é necessário ter uma flora intestinal saudável. Não cheguei a ler com muita atenção nenhuma dessas pesquisas, mas acompanho sempre qualquer novidade nesse tema. Lembrei disso pois meu estômago está em frangalhos, e não é por causa da alimentação. O emocional anda me derribando. Parece que a motoniveladora das provas e expiações resolver ir e voltar algumas vezes, para me colocar em teste. São acidentes no trabalho, ameaças judiciais, ameaças financeiras, decisões (ainda que em conjunto) postas à prova como um exame de competência, ausência de rumo e objetivo claro, ou mesmo de uma saída para essa grande crise que afeta a todos em geral, mas a cada um de uma maneira diferente. Provavelmente não estou sabendo lidar com isso, e só consigo ver desesperan...

Tentativa 1

Toda a alegria do réveillon, a vontade de começar diferente, sem as neuras de sempre, foram por água abaixo com uma carta. Como é que pode toda uma lista de bons propósitos serem abalados tão fortemente por apenas uma folha de papel? Muito provavelmente era um sinal de que as resoluções de ano novo, desde o regime até a mudança de atitude no trabalho, estavam muito dependentes do mundo de que de si próprio. E em 15 minutos pareceu que tudo desabou. O sangue sumiu das veias, o pensamento travou na desgraça e na tragédia, o pessimismo cegou e os outros documentos que precisavam ser lidos foram deixados de lado, as pernas bambearam, a boca secou e a esperança de que tudo seria melhor desapareceu. As palavras na carta eram muito claras, ainda que ele tenha se feito de burro para não querer entender. "Seu contrato que já terminou em 31 de dezembro de 2018 foi prorrogado para 31 de março de 2019." Não há na carta nenhuma menção a um novo contrato, ou a uma razão par...

Triste país

Triste país. Vemos irmãos brigando com irmãos, amigos se separando de amigos, tudo por conta de um radicalismo que desde 2002 vem crescendo, em grande parte devido a um ex-presidente que apostou tudo no "nós contra eles" para se garantir no poder e que ainda hoje tenta influenciar o processo, apesar de estar preso. Não, não eximo de culpa os "eles", que se acovardaram e até repartiram o butim do roubo à nação que já existia desde 1500. O "nós contra eles" era retórica apenas, o objetivo de "nós" e "eles" sempre foi tirar do nosso bolso e por no deles. O primeiro colocado nas pesquisas é um louco, um parlamentar sem representatividade e efetividade, mas que fala ao fígado das pessoas, principalmente na questão da segurança pública. O cidadão comum está com medo de ir às ruas, e não é medo de ser assaltado apenas, mas medo de ser morto se não entregar o celular da maneira correta. E esse medo é compartilhado pela "elite" que pod...

Mais uma derrota

Perdeu. Perdi. Perdemos. Já não sei qual é o meme correto, mas é essa a sensação. Perdeu o Brasil. Perdi a oportunidade. Perdemos todos. Somos mais uma geração perdida, de mais uma década perdida, de mais uma quantidade enorme de esforço para tentar melhorar e não conseguir e voltarmos às soluções mais populistas e rastaqueras que podem existir. Onde foi que erramos? Acordei de manhã tentando ver em qual ponto do caminho, desde 1970, eu pude fazer algo diferente e não fiz. Sim, essa é a praga (ou benção) de quem faz análise, assumir a culpa pelos próprios erros, não ficar responsabilizando o sistema ou os outros pelas desgraças que lhe acometem. Onde foi que erramos? Onde foi que errei? Obviamente, não há uma resposta única. Pois quando eu começo a tomar consciência, estávamos terminando a ditadura. A inflação começava a galopar, resultado da utopia do Brasil gigante promovida pelos militares. Figueiredo sai de cena de maneira melancólica ("Me esqueçam!") e entra o Sarney, um...

A vitória do povo sobre o polvo tributarista

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Estado injusto

O cidadão brasileiro que precisa de serviços públicos está ferrado. E é por essa única razão que o Estado brasileiro aqui deveria ser mínimo ou quase inexistente. Não posso concordar com a afirmação de que o estado serve para distribuir renda, que os impostos que se cobram são para serem compartilhados entre todos, pobres e ricos, que se não fosse o agente fiscal a concentração de renda seria ainda maior, blá-blá-blá. Na teoria pode até ser verdade, mas na prática não funciona assim. Pegue o caso de um contribuinte que precisa de um serviço da Receita Federal. Como o site da Receita é mal feito, conseguir qualquer informação lá, no emaranhado de siglas que existem, é por si só uma epopeia. Se ele conseguir superar essa fase, existe a possibilidade de se poupar algum tempo e agendar o atendimento em uma delegacia da Receita. Mas isso só é possível para quem tem um mínimo de escolaridade, pois é realmente difícil se orientar pelo site. O que a maioria das pessoas fazem? Vão para a Receit...

Nostalgia

Quanto mais duro o presente, maior a nostalgia de quando éramos crianças. Pouco importa que a infância não tenha sido lá um idílio. Afinal, quem tem realmente liberdade até uns 10 anos de vida? Não valer dizer que podia sair para brincar na rua, isso não é liberdade, é apenas aproveitar a segurança que havia nas ruas. Na prática, só íamos brincar na rua se nossos pais deixassem. Aliás, só podíamos fazer qualquer coisa se nos deixassem. Tudo era controlado, tudo era imposto, não tínhamos opinião nem voto, mas recebíamos os vetos. Também eram depositadas sobre nós todas as expectativas de nossos pais. Seríamos o projeto de redenção deles, tudo o que não tivesse dado certo a eles, agora nós realizaríamos para satisfazer o sonho deles. E como demora para conseguir começar a viver e buscar o próprio sonho! Romper com os pais é libertador e ameaçador ao mesmo tempo, por isso é tão difícil. Mas quando se consegue, parece que a trilha no meio do mato vira uma autoestrada. E não é o caso de bri...

Terapeutas e terapias

Já precisei fazer as pazes com o pai interno e a mãe interna. Não entendi direito a que se referia a terapeuta à época, mas fui tocando e pensando no que seria fazer essas pazes. Acho que não entendi, toquei o barco e deixei pra depois. Em uma segunda tentativa, eu já não tinha um pai interno, mas três externos que competiam comigo (sem que eles soubessem) e me colocavam desafios tremendos, praticamente impossíveis de serem transpostos sozinho, sem ajuda. Naquele momento, eu não pude arcar com a ajuda, toquei o barco e deixei de novo para depois. Na terceira, não eram os pais nem a mãe, mas o problema era comigo mesmo. Eu que não sei me valorizar como devo, me jogo para baixo, acho que tudo o que faço não serve para nada, não me imponho nas situações, me escondo em subterfúgios pois não quero enfrentar os problemas de frente. Ainda não deu para arcar com a ajuda, toquei o barco e deixei pra depois. O depois chegou. Já não dá mais para ficar adiando esses ajustes finos em mim. Ainda que...

Tsunami em formação

A sensação não é nova, mas parece que retorna sempre mais forte a cada vez. Acordo no meio da noite, sem razão alguma, já pensando que haverá encrencas durante o dia. A maior parte delas, porém, não tem origem nos meus atos, mas nas decisões que tomei e nos papéis que assumi e que me levam a lidar com elas. Já desperto, mas ainda na escuridão e deitado na cama, começo a traçar os cenários possíveis para lidar com essas situações. Nunca, absolutamente nunca, esses devaneios levam a finais felizes. Por que será? Com o sono perdido, o corpo cansado e a cabeça a mil, fico me virando na cama tentando me concentrar e esquecer o que virá, para lidar com isso apenas na hora que for necessário. Esforço inútil, concentração não é algo que me pertence. A cada novo cenário imaginado, uma nova derrota esboçada. E depois da decepção infligida na pessoa que será afetada pela decisão? Vai romper o contrato com a firma? Vai pedir afastamento do grupo escoteiro? O pai me xingará pois eu não cuidei do fi...

Naufragando

O rebaixamento da nota de risco do Brasil pela S&P hoje, apenas ratifica o que todo mundo que entende um mínimo de economia já vinha dizendo desde antes das eleições: esse governo é incompetente e vai colocar o Brasil no buraco. Não se faz mágica com contas públicas, é necessário gastar menos do que se arrecada. Mas pegaram a única política econômica séria que o país produziu em 510 anos de história, o tripé metas de inflação sérias com BC independente - câmbio flutuante - responsabilidade fiscal e jogaram no lixo. Acharam que haveria espaço para fornecer crédito abundante para todos, e que somente isso tiraria o país da lama. Foram arrogantes ao não ver as lições de outros países (por exemplo, o Japão) que já haviam mostrado que dinheiro a rodo não é o suficiente para mexer a economia. Hoje voltamos uns vinte anos no passado, vinte e um, para ser mais preciso. Estamos na mesma M... que estávamos pouco antes do Plano Real, que devolveu à nossa economia um mínimo de previsibilidad...

Encruzilhadas

Vez por outra me pego pensando no que teria acontecido se eu realmente tivesse seguido algumas decisões que tomei e que, por um bicho chamado ambição (ou ganância), esqueci no segundo seguinte. Decisões importantes, que me trouxeram até aqui, nesse quase beco sem saída em que me encontro. Tem saída, claro, mas é preciso primeiro limpar o entulho do caminho para então sair por ali. Quando eu estava na Gazeta Mercantil e saí para ir para a assessoria de imprensa da Tim, saí para ganhar o dobro de dinheiro. Foi legal, e à época achei que foi uma sábia decisão, pois a Gazeta Mercantil faliu uma semana depois, mandando todos pra rua. Mas todos os que foram pra rua estão bem, e jornalistas. Eu não. Já de volta ao Brasil, estava na Gazeta do Povo, pensando em fazer um mestrado para dar aulas de redação. O bicho da ganância apareceu de novo, e lá fui eu para a GVT. E um ano depois, nova mordida, dessa vez para ir ao marketing. Três, quatro anos de enganação pessoal, até ser...

Difícil

Quando roubam a luz no fim do túnel e fica tudo escuro, é muito difícil manter a esperança. Trabalhar parece uma luta inglória, pois não traz resultado algum. Sofremos para chegar ao próximo dia, à espera de um milagre. E milagres, bem sabemos, não existem. Enfim, continuar, é o que dá para fazer. Desistir não entra no vocabulário, e não é uma opção. Já conheci quem desistiu, e eles não estão mais entre nós. E não quero isso.

Era a macroeconomia, mas ninguém quis ver

Ou melhor, 53% das pessoas não quiseram ver. Durante oito anos, o governo esqueceu todo e qualquer fundamento macroeconômico e deu no que deu. Todos os níveis de governo estão quebrados, e há um efeito dominó na economia que resultará em tempos muito duros para todos. Começa mais ou menos com os estados e União não pagando os fornecedores. Esses, por sua vez, não pagam os funcionários ou os impostos ou os fornecedores. Quem tinha capital de giro já o gastou apenas para ficar respirando, um pouco acima da linha d'água. Sem dinheiro, os trabalhadores irão às ruas protestar ou demitidos mesmo, um dos dois. Com menos dinheiro nas ruas, haverá menos comércio, logo, menos arrecadação de impostos, e aí o círculo viciou e fica difícil sair. Claro que tem saída. Mas alguém acha que nossa presidanta irá fechar 20 ministérios, pelo menos, e demitir metade dos funcionários comissionados que garantem a boquinha de uma dezena de partidos, pelo menos? Alguém aí vê espírito cívico nos legisladores...

Extremos

Tem um lado da humanidade que parece querer, até mesmo desejar, que tudo se encaminhe para os extremos. Muita gente parece não ver que há infinitas tonalidades de cinza (as 50 do livro são muito poucas, faltou imaginação à escritora) entre o branco e o preto. E mesmo esses têm variações, algumas muito difíceis de se ver. É gente que quer sangue no asfalto. É gente que diz que "bandido bom é bandido morto", que todo evangélico é burro, que todo ateu é endemoniado, que todo muçulmano é terrorista, e assim vamos. Essa gente põe uma lente em que só passa uma visão, uma opinião, uma ideia. E que morra o resto do mundo que não pensa igual a ele, ou ainda, que apareça alguém que mate quem não pensa como ele. Um mundo de extremos, onde o diálogo vai desaparecendo, sendo substituído por uma falsa interação social por meios digitais. Talvez desaprendamos como conversar, e só então, quem sabe, já no fundo do poço, a gente perceba que precisará um dos outros para poder sair dele. Quem sa...

Solidão

O ser humano é, essencialmente, um solitário. Todas as tentativas de aplacar essa solidão - amigos, namoradas, esposa, filhos, sobrinhos etc - são apenas isso, tentativas. Na hora das grandes crises, não há ninguém que possa ajudá-lo. Rezar pode diminuir a sensação de solidão, mas deus é mais ou menos como Crom, o deus cimério do Conan. Ele está ali vendo o que você faz e, se você se esforça, pode ser que consiga superar a sua crise, ele manda apoio. Mas se você não faz nada, a culpa é sua, não dele. Cabe a você encontrar forças dentro de si para reagir. Solidão é uma merda. E a gente sente mais isso quanto pior está.

Mundo de malucos ruins

Hoje de manhã malucos fortemente armados invadiram a sede do jornal Charlie Hebdo em Paris. O jornal existe há muito tempo e sempre publicou sátiras em forma de charges contra tudo e contra todos. Mas já há algum tempo, quando outros loucos fundamentalistas ignorantes e obtusos começaram a declarar guerra contra tudo, é que o jornal ficou famoso. Tudo graças a uma charge sobre o profeta Maomé. Ontem os caras publicaram uma charge sobre o líder dos insanos do Estado Islâmico, e parece que esses dementes têm braços suficientemente longos para conseguirem promover um ataque na capital francesa. A contagem inicial de mortos aponta onze pessoas, com chance de serem mais. Você pode até não concordar com charges de motivos religiosos, como muitos políticos não concordam com charges feitas sobre eles. Mas sair por aí atirando? Será que todo deus é vingativo e manda passar o pescoço dos humoristas na ponta da faca? Não acredito que deus, seja ele quem ou qual for, não possua senso de hum...

Um longo interlúdio

Foi mais de um ano sem escrever nada. Será que foi um ano perdido? Difícil dizer, nunca se perde nada ao viver. Mas que 2014 fez bem em acabar na hora certa, fez. Ele tava com cara de que ia se demorar um pouco mais por aqui. Bom, lá se foi o ano passado, agora só temos o presente. E nesse presente, o que será que pode ser feito? Preciso, já escrevi isso em algum lugar, retomar as rédeas da minha vida. Preciso viajar mais, organizar melhor as coisas, dividir melhor o tempo e ficar em forma. Quase tudo já começou a ser feito no fim do ano passado, mas ainda é necessário planejar melhor como fazer. Há uma ou outra meta ambiciosa, no sentido de pretensiosa. Mas acho que são boas metas, que farão a cabeça se mexer para eu parar de ficar me martirizando, achando que sou o único sofredor do mundo, essas idiotices que aparecem quando não se está plenamente satisfeito com a vida. Enfim, é tempo de se mexer. Toda hora é, mas em alguns momentos a necessidade é mais premente. Vamos ver se a maré ...

Hora de enterrar os seus

Está chegando a hora de enterrar os meus. Ambos não são tão velhos assim, mas a saúde pregou peças neles e a hora fatal chegará antes do que eles queriam, antes do que eu imaginava, antes de qualquer preparação mais longa. Não é que isso não fosse esperado. Em algum momento, eles morreriam antes de mim, se a vida e a natureza seguissem o percurso lógico. E apesar de meus abusos, consegui não subverter a regra da natureza. Então, a hora está chegando. Não sei direito o que sinto quando penso nesta realidade. Não sei se sentirei falta, alívio, remorso, raiva, dor, compaixão, não sei. Há muita coisa passando pela cabeça, nem todas muito boas ou descentes a ponto de serem ditas, e não há muita vontade de analisá-las, não agora. Deixa as minhocas ficarem passeando. Vários colegas e amigos já passaram por essa estrada que eu começo a trilhar agora. Todos dizem que é difícil, mas que com o tempo se acostuma a tudo. Também acredito nisso, o que não me impede de continuar nã...