Hora de enterrar os seus

Está chegando a hora de enterrar os meus. Ambos não são tão velhos assim, mas a saúde pregou peças neles e a hora fatal chegará antes do que eles queriam, antes do que eu imaginava, antes de qualquer preparação mais longa.
Não é que isso não fosse esperado. Em algum momento, eles morreriam antes de mim, se a vida e a natureza seguissem o percurso lógico. E apesar de meus abusos, consegui não subverter a regra da natureza. Então, a hora está chegando.
Não sei direito o que sinto quando penso nesta realidade. Não sei se sentirei falta, alívio, remorso, raiva, dor, compaixão, não sei. Há muita coisa passando pela cabeça, nem todas muito boas ou descentes a ponto de serem ditas, e não há muita vontade de analisá-las, não agora. Deixa as minhocas ficarem passeando.
Vários colegas e amigos já passaram por essa estrada que eu começo a trilhar agora. Todos dizem que é difícil, mas que com o tempo se acostuma a tudo. Também acredito nisso, o que não me impede de continuar não gostando disso. Acredito em Deus, com d maiúsculo mesmo, e sei que ele escreve certo por linhas tortas. Mas ninguém me obriga a achar o texto legal.
Logo virá a hora de enterrar os meus. Nada mais natural que um filho enterrar seus pais, cremar, o que for. Até o momento em que o filho é você. Aí, nada mais é natural.

Comentários

Prezado Adriano Koehler.

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