Crônica da inveja das pequenas coisas
Hoje pela manhã, no elevador, encontro com os pedreiros que estão fazendo a reforma do oitavo andar. Gente simples, tranquila, que na sexta de manhã já estão fazendo grandes planos para o fim de semana. Um deles diz que já está na geladeira o fardo de brahmas junto com uma carne e que a churrasqueirinha de tambor já está limpa. O seu colega responde: “maravilha!” e saem do elevador sorrindo pegar mais uns sacos de cimento. Tenho inveja dessa calma.
No caminho para o escritório, passo em frente a um café. Uma mesa na calçada está ocupada com quatro jovens, cada um com seu refri e um salgado à mão. Todos sorriem. Ninguém está preocupado com um sapato de grife ou uma camisa de marca. Presto mais atenção e vejo o crachá de uma empresa de telemarketing pendurado em seus pescoços. Não sei se eles moram com seus pais, provavelmente sim. Mesmo assim, o pouco salário deles basta para o que eles querem comprar ou gastar no fim de semana. E tenho inveja dessa idade e desse tempo.
Em outro ponto do caminho, dois senhores estão sentados em um banco de praça. Ambos usam roupas simples, seus gestos são comedidos. Não consigo entender sobre o que conversam, mas de longe dá para perceber que um fala e o outro escuta, e vice-versa, coisa rara hoje em dia. Parecem se conhecer a muito tempo, ou mesmo que não o seja, há uma afinidade entre eles que paira no ar, algo como uma parceria. Não consigo ver as mãos deles para detectar alguma aliança de casamento. No entanto, estão ali, companheiros um do outro. E tenho inveja dessa parceria.
Quando penso que só há inveja dentro de mim, percebo que passei por muitos moradores de rua. A droga tem levado cada vez mais pessoas a essa situação. E, para eles, quando conseguem sair do torpor barato do crack ou do corote, eu sou a pessoa a ser invejada. Estou vestido com roupas limpas, carrego uma mochila com o computador, estou indo ao trabalho, escuto música pelo fone de ouvido. E nessa hora, percebo que se ficarmos prestando atenção aos outros, nunca estaremos satisfeitos com o que temos. Sossego os pensamentos, faço uma oração de agradecimento, peço forças para enfrentar os momentos difíceis e aprender, e sigo em frente.
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