Crônica da fuga

Na mesa de trabalho, duas telas deveriam chamar mais a atenção que o livro que está fechado ao lado. Uma briga se desenrola no cérebro: o dever imediato e o prazer imediato. O dever manda checar os indicadores, ver o saldo dos clientes, buscar aplicações, oferecer produtos etc. O prazer manda você mandar tudo à pqp e abrir o livro e continuar a leitura. O mundo está descaralhando mesmo, de que adianta ficar de olho em duas telas, quando há um mundo alternativo muito mais atraente?

A cada instante, uma nova rota de fuga da realidade se abre. É o livro, pode ser uma HQ, ou então um filme, ou mesmo um parque. Em alguns casos, o algoritmo até parece conspirar junto com o seu cérebro. Na tela, pipoca uma nova trilha por montanhas conhecidas e não, ou uma prova à beira mar com baleias e o convite para correr 42 km (e nessa hora as panturrilhas gritam pra quê???), ou uma ciclovia sensacional em algum lugar do mundo.

Ao telefone, o primo liga. Mais exatamente, o filho da prima. Ele quer sair do Brasil, se aventurar por terras gringas para viver um tempo em que há poucas responsabilidades e muita vontade de conhecer novas paragens, ver gente diferente, vivenciar outras experiências longe de casa. Dá até um comichão na sola do pé, é preciso segurar a língua para não se convidar a ir junto. As rotas de fuga estão à mão. Será necessário cumprir a pena até o final?

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Congelando na terra das araucárias

Crônica da falta de visão

Crônica do espanto sartriano