Tristes países

Tenho dois países, o Brasil e a Itália. Moro no Brasil, morei na Itália. Em ambos, dois governos de perfil autoritário, que não gostam da contestação a suas idéias, populistas, que preferem dar esmola e subsídios a quem não produz que estimular o trabalho e a educação. Alguns poderão achar estranho, mas o Lula e o Berlusconi são muito, mas muito parecidos. Não se fala aqui de esquerda ou direita, mas de características pessoais.
Com todos os esforços que o governo Lula fez para tentar controlar a mídia nacional - vamos deixar de lado os milhões gastos com publicidade que sustentam milhares de veículos picaretas por aí - vê-se que seu sonho é ser que nem Berlusconi, que tem três redes de TV privadas e controla as outras três estatais por ser o primeiro-ministro. Mas Lula não é, e tem que aguentar um que outro jornal mais crítico.
Lula tem imunidade pelo cargo que ocupa. Até hoje não respondeu ao juiz que conduz o processo do mensalão - por escrito. Berlusconi tentou criar uma lei que lhe desse imunidade. A Corte Suprema negou. Agora passou um outro projeto que autoriza ele e alguns outros ministros a adiar em até 18 meses sua ida ao tribunal caso citado em processo. Por enquanto está valendo. E o que ele quer é passar uma outra lei que determina um prazo máximo de dois anos para julgar o que for. Isso sem dar nenhuma estrutura ao Judiciário. Fácil.
Na Itália haverá eleições regionais no próximo mês. Na região do Lazio, o partido de Berlusconi não entregou a lista de candidatos à Justiça Eleitoral dentro do prazo. O responsável disse que parou no caminho para comer um sanduíche. O partido do Berlusconi contestou, mas os juízes disseram que simplesmente a lei não havia sido cumprida. Berlusconi pediu aos seus manifestantes para invadirem as praças e protestarem contra a lei. Lula faz campanha para Dilma há quase um ano. Seus arroubos verbais são flagrantes atos de campanha antecipada, à revelia da lei. Sua resposta a essas acusações é que a lei não é bem clara, e que ele não faz campanha. Para ambos, a lei só é boa quando é para os outros, não para si.
E, nos dois países, quem trabalha sofre. Quem é honesto sofre. Cria-se, no Brasil e na Itália, a mentalidade de que legalmente não se pode progredir. Berlusconi é idolatrado por uma parcela dos italianos que acham que sucesso pessoal conseguido com quaisquer meios é mais importante que sucesso com lisura. Lula não diz, mas apóia todos os seus chegados que cometeram alguma irregularidade: os 40 do mensalão, os aloprados da campanha de 2006, o presidente da Bancoop, o seu churrasqueiro, o ministro que violou o sigilo do caseiro, enfim, todo mundo é por ele perdoado. Coloca-se o torto e o incorreto como justificáveis, "o ser humano é assim mesmo..."
Quem trabalha honestamente, paga seus impostos, tenta não cometer muitas irregularidades no trânsito, procura ser sincero nas relações pessoas, tenta não explorar o outro, em meus países, essas pessoas são chamadas de trouxas. Talvez sejamos mesmo, trouxas. Mas acreditar que é possível crescer sendo justo e honesto talvez seja a única maneira de dormir com a certeza de que se constrói um mundo melhor para nossos filhos, ainda que demore pra caramba...

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