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Mais uma derrota

Perdeu. Perdi. Perdemos. Já não sei qual é o meme correto, mas é essa a sensação. Perdeu o Brasil. Perdi a oportunidade. Perdemos todos. Somos mais uma geração perdida, de mais uma década perdida, de mais uma quantidade enorme de esforço para tentar melhorar e não conseguir e voltarmos às soluções mais populistas e rastaqueras que podem existir. Onde foi que erramos? Acordei de manhã tentando ver em qual ponto do caminho, desde 1970, eu pude fazer algo diferente e não fiz. Sim, essa é a praga (ou benção) de quem faz análise, assumir a culpa pelos próprios erros, não ficar responsabilizando o sistema ou os outros pelas desgraças que lhe acometem. Onde foi que erramos? Onde foi que errei? Obviamente, não há uma resposta única. Pois quando eu começo a tomar consciência, estávamos terminando a ditadura. A inflação começava a galopar, resultado da utopia do Brasil gigante promovida pelos militares. Figueiredo sai de cena de maneira melancólica ("Me esqueçam!") e entra o Sarney, um...

A vitória do povo sobre o polvo tributarista

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Estado injusto

O cidadão brasileiro que precisa de serviços públicos está ferrado. E é por essa única razão que o Estado brasileiro aqui deveria ser mínimo ou quase inexistente. Não posso concordar com a afirmação de que o estado serve para distribuir renda, que os impostos que se cobram são para serem compartilhados entre todos, pobres e ricos, que se não fosse o agente fiscal a concentração de renda seria ainda maior, blá-blá-blá. Na teoria pode até ser verdade, mas na prática não funciona assim. Pegue o caso de um contribuinte que precisa de um serviço da Receita Federal. Como o site da Receita é mal feito, conseguir qualquer informação lá, no emaranhado de siglas que existem, é por si só uma epopeia. Se ele conseguir superar essa fase, existe a possibilidade de se poupar algum tempo e agendar o atendimento em uma delegacia da Receita. Mas isso só é possível para quem tem um mínimo de escolaridade, pois é realmente difícil se orientar pelo site. O que a maioria das pessoas fazem? Vão para a Receit...

Nostalgia

Quanto mais duro o presente, maior a nostalgia de quando éramos crianças. Pouco importa que a infância não tenha sido lá um idílio. Afinal, quem tem realmente liberdade até uns 10 anos de vida? Não valer dizer que podia sair para brincar na rua, isso não é liberdade, é apenas aproveitar a segurança que havia nas ruas. Na prática, só íamos brincar na rua se nossos pais deixassem. Aliás, só podíamos fazer qualquer coisa se nos deixassem. Tudo era controlado, tudo era imposto, não tínhamos opinião nem voto, mas recebíamos os vetos. Também eram depositadas sobre nós todas as expectativas de nossos pais. Seríamos o projeto de redenção deles, tudo o que não tivesse dado certo a eles, agora nós realizaríamos para satisfazer o sonho deles. E como demora para conseguir começar a viver e buscar o próprio sonho! Romper com os pais é libertador e ameaçador ao mesmo tempo, por isso é tão difícil. Mas quando se consegue, parece que a trilha no meio do mato vira uma autoestrada. E não é o caso de bri...

Terapeutas e terapias

Já precisei fazer as pazes com o pai interno e a mãe interna. Não entendi direito a que se referia a terapeuta à época, mas fui tocando e pensando no que seria fazer essas pazes. Acho que não entendi, toquei o barco e deixei pra depois. Em uma segunda tentativa, eu já não tinha um pai interno, mas três externos que competiam comigo (sem que eles soubessem) e me colocavam desafios tremendos, praticamente impossíveis de serem transpostos sozinho, sem ajuda. Naquele momento, eu não pude arcar com a ajuda, toquei o barco e deixei de novo para depois. Na terceira, não eram os pais nem a mãe, mas o problema era comigo mesmo. Eu que não sei me valorizar como devo, me jogo para baixo, acho que tudo o que faço não serve para nada, não me imponho nas situações, me escondo em subterfúgios pois não quero enfrentar os problemas de frente. Ainda não deu para arcar com a ajuda, toquei o barco e deixei pra depois. O depois chegou. Já não dá mais para ficar adiando esses ajustes finos em mim. Ainda que...

Tsunami em formação

A sensação não é nova, mas parece que retorna sempre mais forte a cada vez. Acordo no meio da noite, sem razão alguma, já pensando que haverá encrencas durante o dia. A maior parte delas, porém, não tem origem nos meus atos, mas nas decisões que tomei e nos papéis que assumi e que me levam a lidar com elas. Já desperto, mas ainda na escuridão e deitado na cama, começo a traçar os cenários possíveis para lidar com essas situações. Nunca, absolutamente nunca, esses devaneios levam a finais felizes. Por que será? Com o sono perdido, o corpo cansado e a cabeça a mil, fico me virando na cama tentando me concentrar e esquecer o que virá, para lidar com isso apenas na hora que for necessário. Esforço inútil, concentração não é algo que me pertence. A cada novo cenário imaginado, uma nova derrota esboçada. E depois da decepção infligida na pessoa que será afetada pela decisão? Vai romper o contrato com a firma? Vai pedir afastamento do grupo escoteiro? O pai me xingará pois eu não cuidei do fi...

Naufragando

O rebaixamento da nota de risco do Brasil pela S&P hoje, apenas ratifica o que todo mundo que entende um mínimo de economia já vinha dizendo desde antes das eleições: esse governo é incompetente e vai colocar o Brasil no buraco. Não se faz mágica com contas públicas, é necessário gastar menos do que se arrecada. Mas pegaram a única política econômica séria que o país produziu em 510 anos de história, o tripé metas de inflação sérias com BC independente - câmbio flutuante - responsabilidade fiscal e jogaram no lixo. Acharam que haveria espaço para fornecer crédito abundante para todos, e que somente isso tiraria o país da lama. Foram arrogantes ao não ver as lições de outros países (por exemplo, o Japão) que já haviam mostrado que dinheiro a rodo não é o suficiente para mexer a economia. Hoje voltamos uns vinte anos no passado, vinte e um, para ser mais preciso. Estamos na mesma M... que estávamos pouco antes do Plano Real, que devolveu à nossa economia um mínimo de previsibilidad...

Encruzilhadas

Vez por outra me pego pensando no que teria acontecido se eu realmente tivesse seguido algumas decisões que tomei e que, por um bicho chamado ambição (ou ganância), esqueci no segundo seguinte. Decisões importantes, que me trouxeram até aqui, nesse quase beco sem saída em que me encontro. Tem saída, claro, mas é preciso primeiro limpar o entulho do caminho para então sair por ali. Quando eu estava na Gazeta Mercantil e saí para ir para a assessoria de imprensa da Tim, saí para ganhar o dobro de dinheiro. Foi legal, e à época achei que foi uma sábia decisão, pois a Gazeta Mercantil faliu uma semana depois, mandando todos pra rua. Mas todos os que foram pra rua estão bem, e jornalistas. Eu não. Já de volta ao Brasil, estava na Gazeta do Povo, pensando em fazer um mestrado para dar aulas de redação. O bicho da ganância apareceu de novo, e lá fui eu para a GVT. E um ano depois, nova mordida, dessa vez para ir ao marketing. Três, quatro anos de enganação pessoal, até ser...

Difícil

Quando roubam a luz no fim do túnel e fica tudo escuro, é muito difícil manter a esperança. Trabalhar parece uma luta inglória, pois não traz resultado algum. Sofremos para chegar ao próximo dia, à espera de um milagre. E milagres, bem sabemos, não existem. Enfim, continuar, é o que dá para fazer. Desistir não entra no vocabulário, e não é uma opção. Já conheci quem desistiu, e eles não estão mais entre nós. E não quero isso.

Era a macroeconomia, mas ninguém quis ver

Ou melhor, 53% das pessoas não quiseram ver. Durante oito anos, o governo esqueceu todo e qualquer fundamento macroeconômico e deu no que deu. Todos os níveis de governo estão quebrados, e há um efeito dominó na economia que resultará em tempos muito duros para todos. Começa mais ou menos com os estados e União não pagando os fornecedores. Esses, por sua vez, não pagam os funcionários ou os impostos ou os fornecedores. Quem tinha capital de giro já o gastou apenas para ficar respirando, um pouco acima da linha d'água. Sem dinheiro, os trabalhadores irão às ruas protestar ou demitidos mesmo, um dos dois. Com menos dinheiro nas ruas, haverá menos comércio, logo, menos arrecadação de impostos, e aí o círculo viciou e fica difícil sair. Claro que tem saída. Mas alguém acha que nossa presidanta irá fechar 20 ministérios, pelo menos, e demitir metade dos funcionários comissionados que garantem a boquinha de uma dezena de partidos, pelo menos? Alguém aí vê espírito cívico nos legisladores...

Extremos

Tem um lado da humanidade que parece querer, até mesmo desejar, que tudo se encaminhe para os extremos. Muita gente parece não ver que há infinitas tonalidades de cinza (as 50 do livro são muito poucas, faltou imaginação à escritora) entre o branco e o preto. E mesmo esses têm variações, algumas muito difíceis de se ver. É gente que quer sangue no asfalto. É gente que diz que "bandido bom é bandido morto", que todo evangélico é burro, que todo ateu é endemoniado, que todo muçulmano é terrorista, e assim vamos. Essa gente põe uma lente em que só passa uma visão, uma opinião, uma ideia. E que morra o resto do mundo que não pensa igual a ele, ou ainda, que apareça alguém que mate quem não pensa como ele. Um mundo de extremos, onde o diálogo vai desaparecendo, sendo substituído por uma falsa interação social por meios digitais. Talvez desaprendamos como conversar, e só então, quem sabe, já no fundo do poço, a gente perceba que precisará um dos outros para poder sair dele. Quem sa...

Solidão

O ser humano é, essencialmente, um solitário. Todas as tentativas de aplacar essa solidão - amigos, namoradas, esposa, filhos, sobrinhos etc - são apenas isso, tentativas. Na hora das grandes crises, não há ninguém que possa ajudá-lo. Rezar pode diminuir a sensação de solidão, mas deus é mais ou menos como Crom, o deus cimério do Conan. Ele está ali vendo o que você faz e, se você se esforça, pode ser que consiga superar a sua crise, ele manda apoio. Mas se você não faz nada, a culpa é sua, não dele. Cabe a você encontrar forças dentro de si para reagir. Solidão é uma merda. E a gente sente mais isso quanto pior está.

Mundo de malucos ruins

Hoje de manhã malucos fortemente armados invadiram a sede do jornal Charlie Hebdo em Paris. O jornal existe há muito tempo e sempre publicou sátiras em forma de charges contra tudo e contra todos. Mas já há algum tempo, quando outros loucos fundamentalistas ignorantes e obtusos começaram a declarar guerra contra tudo, é que o jornal ficou famoso. Tudo graças a uma charge sobre o profeta Maomé. Ontem os caras publicaram uma charge sobre o líder dos insanos do Estado Islâmico, e parece que esses dementes têm braços suficientemente longos para conseguirem promover um ataque na capital francesa. A contagem inicial de mortos aponta onze pessoas, com chance de serem mais. Você pode até não concordar com charges de motivos religiosos, como muitos políticos não concordam com charges feitas sobre eles. Mas sair por aí atirando? Será que todo deus é vingativo e manda passar o pescoço dos humoristas na ponta da faca? Não acredito que deus, seja ele quem ou qual for, não possua senso de hum...

Um longo interlúdio

Foi mais de um ano sem escrever nada. Será que foi um ano perdido? Difícil dizer, nunca se perde nada ao viver. Mas que 2014 fez bem em acabar na hora certa, fez. Ele tava com cara de que ia se demorar um pouco mais por aqui. Bom, lá se foi o ano passado, agora só temos o presente. E nesse presente, o que será que pode ser feito? Preciso, já escrevi isso em algum lugar, retomar as rédeas da minha vida. Preciso viajar mais, organizar melhor as coisas, dividir melhor o tempo e ficar em forma. Quase tudo já começou a ser feito no fim do ano passado, mas ainda é necessário planejar melhor como fazer. Há uma ou outra meta ambiciosa, no sentido de pretensiosa. Mas acho que são boas metas, que farão a cabeça se mexer para eu parar de ficar me martirizando, achando que sou o único sofredor do mundo, essas idiotices que aparecem quando não se está plenamente satisfeito com a vida. Enfim, é tempo de se mexer. Toda hora é, mas em alguns momentos a necessidade é mais premente. Vamos ver se a maré ...

Hora de enterrar os seus

Está chegando a hora de enterrar os meus. Ambos não são tão velhos assim, mas a saúde pregou peças neles e a hora fatal chegará antes do que eles queriam, antes do que eu imaginava, antes de qualquer preparação mais longa. Não é que isso não fosse esperado. Em algum momento, eles morreriam antes de mim, se a vida e a natureza seguissem o percurso lógico. E apesar de meus abusos, consegui não subverter a regra da natureza. Então, a hora está chegando. Não sei direito o que sinto quando penso nesta realidade. Não sei se sentirei falta, alívio, remorso, raiva, dor, compaixão, não sei. Há muita coisa passando pela cabeça, nem todas muito boas ou descentes a ponto de serem ditas, e não há muita vontade de analisá-las, não agora. Deixa as minhocas ficarem passeando. Vários colegas e amigos já passaram por essa estrada que eu começo a trilhar agora. Todos dizem que é difícil, mas que com o tempo se acostuma a tudo. Também acredito nisso, o que não me impede de continuar nã...

Sem nada...

apatia (grego apátheia , insensibilidade, apatia) s. f. 1. Falta de energia. 2. Indiferença. 3. Indolência.   indiferença s. f. 1. Qualidade daquele ou daquilo que é indiferente. 2. Falta de cuidado, de zelo. 3. Apatia. 4. Desprezo. 5. Negligência. 6. Estado de uma pessoa a quem tão pouco importa uma coisa como o contrário dela. 7. Frieza; insensibilidade.   desmotivação ( desmotivar + -ção ) s. f. 1. Ausência de motivo, de fundamentação. 2. Ausência de motivação. ≠ MOTIVAÇÃO   desmotivar ( des- + motivar ) v. tr. e pron. 1. Privar(-se) de fundamento, motivo. 2. Privar(-se) de motivação.   fundamento s. m. 1. Base principal. 2. Prova. 3. Causa. 4. Motivo. 5. Fundação.  

Famílias e famílias

Houve uma época em que toda família era Doriana. Claro, em algumas havia um ou outro grão não processado, alguma imperfeição, qualquer coisa que deveria tirar aquele sorriso besta do rosto de todos que nunca se desmanchava. Mas essas imperfeições não apareciam, e tudo parecia bom. De repente tudo o que era perfeito foi desaparecendo. Primeiro os casais começaram a se separar, e o pai já não vivia com a mãe na mesma casa. Normalmente, o pai era o cara que saía, e os filhos ficavam com as mães. (Pequena dúvida: será que a homossexualidade se tornou mais popular depois que gerações e gerações de mães afirmaram peremptoriamente que "seu pai é um canalha, homem nenhum presta!", ou isso não tem nada a ver? Nesse caso, onde entrariam as homossexuais mulheres?). A coisa já começa a complicar. O homem, devido à sociedade machista que ainda temos, conseguia casar de novo mais rápido que a mãe, que sofria com o estigma de ser desquitada ou divorciada. E logo a cri...

Gangorra cambial

O título parece sério. Para o leitor, significa que o cronista, comentarista ou coisa que o valha falará sobre o sobe e desce das moedas internacionais. Atualmente o dólar sobe, o real desce, junto com ele a rúpia, o rublo, o rand (notaram que são todas moedas com "r"?), o yuan talvez não, sei lá. Mas não será esse o tema. Queria achar um gancho para falar de outra coisa. Sei que a economia move o mundo, sei que o dinheiro faz as coisas andarem, que trabalhamos para ter mais conforto material para podermos viver melhor, que podemos até não ser escravos do dinheiro ao não querer ficar acumulando tudo sem sentido. Mas que o mundo é escravo do dinheiro é. Claro que importa sabermos que o dólar sobe, pois afeta a inflação, e isso afeta o nosso dia-a-dia. Mas quantas pessoas no mundo sabem exatamente os jogos que são feitos com as taxas de câmbio pelo mundo? Quantos nesse exato momento estão lucrando milhões e bilhões antecipando movimentos que os governos farão para se proteg...

Vontade de mudança

Às vezes, queremos mudar somente pelo ato de mudar. Mudar para outro país, para outro emprego, para outra roupa, outro esporte, qualquer mudança, apenas para variar. Dá a impressão de que ficar muito tempo fazendo a mesma coisa conduz à estagnação, ao marasmo, à ausência de evolução. É difícil manter a consciência de que devemos mudar por dentro, não por fora. Mudar de país só torna a dificuldade da adaptação a um novo lugar mais importante que se concentrar nos nossos aspectos internos. Podemos deixar aquela pergunta altamente incômoda, "eu sou quem sou?", para depois, pois temos que nos preocupar em achar casa, achar emprego, ver como se faz para ir de um a outro, onde comprar roupa, como pedir licença, dizer obrigado, enfim, o comezinho. Mas é só adiar o confronto consigo próprio. Mudar de emprego não muda nada. Se o que deixa insatisfeito é o trabalho em si, pouco importa onde ele seja executado. Mudar de emprego só vale se for para fazer algo completamente diferente ...

A realidade dói

Em algum momento de nossas vidas percebemos que temos mais responsabilidades e deveres que direitos. Não sei exatamente quando isso acontece, mas fatalmente acontece. Talvez isso esteja acontecendo tarde demais para todos nós. Sem querer repetir o que a Eliane Brum já escreveu de maneira definitiva ("Meu filho, você não merece nada", em http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI247981-15230,00.html ), quando a experiência acontece com você ela dói mais. Dói quando você percebe que você lutava por muitos direitos, mas parecia pouco inclinado a aceitar seus deveres. E, aos 20 e passa anos, ainda achava que merecia muita coisas, mas tinha feito muito pouco para realmente conquistá-las. Dói ver a retrospectiva da vida e perceber que você era um bosta como todos aqueles filhinhos de papai que você criticava, quando na verdade era apenas mais um, somente sem as roupas de grife. Dói quando você vê seus filhos, que você tinha certeza que estava educando...