Crônica da falta de leitura
Tem muita coisa errada no mundo, mas desde o advento das redes sociais, parece que tudo está piorando em uma velocidade inaudita. As pessoas não leem mais. E, ao deixar de ler, vão esquecendo a história. E como disse George Santayana, “quem não conhece a sua história corre o risco de repeti-la”. Basta ver o esperneio dos perdedores da eleição presidencial brasileira.
Vamos aos fatos. A vitória do Bolsonaro no primeiro turno aumentou o número de incidentes ambientais na Amazônia em 50% nos primeiros dias após a eleição. Só a expectativa de voltar ao poder alguém que é negacionista do clima já fez a turma do garimpo ilegal, da exploração predatória da madeira e do desmatamento para colocar pasto no lugar voltar à ativa. A turma não leu o que aconteceu antes?
Nas duas semanas que antecederam o segundo turno, muitas matérias foram publicadas mostrando os laços do FB com a milícia, a turma das bets, o advogado no epicentro do escândalo do INSS, a farra na lancha com a turma que queria empurrar uma vacina superfaturada para cima do SUS, fora o Dark Horse. Mas a turma continuou acreditando nas tias do ZAP e nas fake news, e preferiu dançar micareta e fazer corte nas redes sociais (que foram furadas, sabe-se lá como), em vez de ler.
Em 1984, George Orwell inventa a novilíngua, onde as palavras existentes adquirem novos significados para atender os interesses da classe dominante. Lembra algo sobre redes sociais? Em O Conto de Aia, um governo impede as mulheres de votar e de poder usar dinheiro. Alguém leu a proposta da direita extrema brasileira que queria criar o “voto de família”, onde só o “cabeça” da família (e, pelo desenho deles, o homem) votaria por todos em casa? Pois é, ninguém leu. E o plano de governo do homem, leram? Lá estava escrito um corte de R$ 250 bilhões em gastos, sem dizer de onde. Leram? Não, porque o PT láralilará, tirulirulu etc. Não leem.
Terras raras? Em discurso nos EUA, o FB prometeu entregar pro Trump. PIX? Ah, dá para fazer um acordo com o Zeele, privado e de alcance hiperlimitado e pago! SUS? O ex-futuro Ministro da Saúde já dizia que atrapalhava o atendimento das pessoas. Tá tudo falado e escrito. Mas leram? Não.
Enfim, dá pena ver a indigência mental de pessoas que se dizem esclarecidas. Hoje escutei a frase tradicional: “E dá-lhe trabalhar para pagar o bolsa família”. Pois é, um programa que é reconhecido no mundo como altamente eficaz para tirar as pessoas do estado de indigência, que recoloca as pessoas no mercado de trabalho (81% dos beneficiários acham emprego) e custará R$ 157 bilhões em 2027. Mas os incentivos fiscais em 2026 devem fechar próximo a R$ 900 bilhões. Está tudo escrito, mas quem está lendo? Eles não.
Esse é o resumo da conta. Uma, várias, muitas nações que deixaram de ler. Os índices de leitura mundiais despencam, e a ignorância grassa. A ignorância é pior que a burrice, pois é uma escolha da pessoa. Ter a informação e não lidar com ela é o pior dos mundos. Esse texto mesmo talvez seja apenas uma mensagem na garrafa jogada ao mar, sem que ninguém o leia. Não tem problema. Essa desgraça chamada memória coletiva da internet um dia o resgatará.
Sigamos, com muito amor e poesia (obrigado, Duda Salabert)!
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