Crônica ao léu
Acordo com o barulho do alarme do celular, penso que mais dez minutos não afetarão o mundo, aperto o botão disso, e viro pro lado. Em um segundo depois, o alarme toca de novo e daí, da realidade não dá para escapar. Joga as pernas para fora da cama, tira a roupa que serve de pijama e se veste a armadura do dia, e vamos pra cozinha fazer o café. Por que será que não reclamamos muito do cardápio estático dos cafés da manhã? Por mais que tentemos, o cardápio possível permanece. Mas talvez, apenas talvez, o cardápio é limitado, e restrito a liberalidades. Então, fica a opção frutas com iogurte ou feijão com bacon. Seguimos.
Trinta minutos depois, essas dúvidas existenciais sobre o que comer no café da manhã desaparecem, e vem as nossas dúvidas, e talvez em uma ordem de prioridade na cabeça: “boletos, contas futuras, preciso trocar de carro/moto/terno/saia/calçado, aposentadoria, e aquele livro que eu vou escrever”. A realidade vem como um tsunami, e o sonho, lá no fim da lista de coisas a fazer, diz que você precisa parar, chamar essa pessoa – você mesmo – e perguntar: “Meu amigo, o que você quer?”
No fim das contas, estamos presos (ou libertos) por essa pergunta. Quando não sabemos, vamos levando do jeito que dá e não abordamos as questões principais. Respondemos que “sei bem o que não quero, mas não consigo te dizer o que quero.” Na prática, mergulhamos no mar (e você escolhe se quer mergulhar com os equipamentos de segurança, e esse mar é retórico) e esperamos que o mar nos provoque, para então reagirmos. Pró-atividade é um conceito legal, mas a humanidade só progrediu na reatividade (me eximo dos exemplos).
Quantos de nós respondem a pergunta “o que você quer?” antes de agir? Sem essa resposta, toda ação está limitada. Sem sermos nós, não seremos ninguém.
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