Crônica da cacofonia
Uma das piores solidões que existe é a de estar em uma sala cheia de gente e não conseguir falar com ninguém. É ainda pior quanto todos falam e ninguém escuta. E se você falar, só será para aumentar a cacofonia e sentir-se ainda mais sozinho. Coloque-se também em um lugar onde todo o tema dos diálogos versam sobre um assunto que todos acham que sabem de algo, mas na prática ninguém sabe de nada.
A dificuldade de escutar veio junto com a facilidade de falar. As redes sociais deram voz a todos, e voz no sentido físico mesmo, de barulho, de sons. O ruído branco que sempre houve, desde os princípios da industrialização, só fez aumentar na modernidade. Primeiro foram as chaminés das fábricas, depois as ferrovias, rodovias, rádio, televisão, aviação, os sons da construção civil etc, em uma sequência sem fim, em que um som se sobrepõe ao centro, sem que a pré-existente desaparecesse. É ainda mais barulho. E daí a pessoa acha que se ela falar mais alto, ela será mais ouvida. Pelo contrário, o grito alto ensurdece.
Não à toa a vontade de escapar é cada vez maior. As trilhas no meio do mato chamam cada vez mais gente, fugindo do barulho. O problema é quando quem escapa leva consigo o seu gerador de ruídos, seja uma caixinha de som ou o celular no talo. A pessoa quer silêncio, mas leva consigo o ruído. Não consegue escutar nem a si mesmo, quanto mais aos outros. Alô, alô, câmbio?
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