Frio. Muito frio. Já é outubro, e o clima está congelante. Parece um outubro inglês, quando já se tiram os casacos pesados do armário pois a qualquer momento pode vir uma frente gelada do Ártico. Aqui, Curitiba, cidade com fama de fria, faz frio de verdade. As vitrines anunciam as liquidações de inverno com o inverno ainda em andamento. Não podem já renovar as coleções pois ninguém se arrisca a vestir bermuda e camiseta. Claro, a barriga das meninas continua de fora, desde que a humanidade as liberou para mostrar seu umbigo, eles nunca mais foram escondidos. Tá frio, e tudo fica frio. Perde-se a motivação para sair de casa, visitar os amigos, experimentar um bar ou restaurante novo. Todos os desejos são recolhidos, são o de recolher-se e ficar quieto no seu canto, debaixo de um cobertor, vendo um filme e tomando algo quente. Nada mais. O frio esfria as pessoas, amortece a cidade, deixa-a lenta. Claro, algo aconteceu com o clima que não é normal. Sem ser um ecochato, estragamos tudo ...
O corpo acorda antes do despertador, pois a cabeça não é que parou de pensar durante a noite. Já é quase um ritual, desligar o alarme do celular e dizer ao aparelho: “pode descansar, deixa que eu trabalho”. Falar com um objeto inanimado pode parecer estranho, mas a solidão é companheira a tanto tempo que faz sentido. O estômago ronca, o café da manhã desce e o estômago continua roncando. Não há alimento que sacie o vazio provocado pelos pensamentos intrusivos da noite. “Será que vai dar ruim? Vou ter que procurar outro lugar para trabalhar? De novo? Logo agora que parecia dar certo?”. Mas a pergunta que realmente pega é: “o que você quer mesmo?” E para essa, parece não haver resposta. O corpo segue faminto, a cabeça latejando, uma sensação de algo explodirá em breve. Pode ser apenas uma mente que não consegue enxergar as perspectivas boas, apenas as partes ruins e sofridas. E assim, adiando as decisões do que o coração pede pois há uma demanda que o bolso quer (e que não é import...
Exercer a liberdade absoluta a que estamos condenados, como disse o Sartre, pode espantar as pessoas. Somos tão acostumados a julgar os outros pelas suas atitudes que, quando nós tomamos decisões que fogem ao que o outro espera de nós, provocamos o espanto . “Como assim, você quer ser vendedor de tintas?” “O que, vai trocar o certo pelo duvidoso, você que é tão inteligente?” E por aí vai o espanto alheio. Ninguém pergunta a você o que você quer, a pessoa supõe que sabe o que você quer e se a informação não se casar com a pressuposição, vem o espanto. Uma explicação possível é que, por mais amigos, por mais íntima que seja uma relação, somos sempre estranhos ao outro. Conhecemos o outro bem, talvez muito bem, mas não compartilhamos a nossa intimidade mais profunda, estamos sempre com uma ou mais camadas de proteção. Temos medo de nos expor exatamente como somos, ou melhor, o que queremos, e esse desconhecimento por parte do outro é a razão do espanto. É quando decidimos tornar conh...
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